Mar negro - Parte V

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Sinopse: ‘Mar Negro’ é a sequência de experiências multidimensionais narradas por um personagem que volta e meia é levado para conhecer e viver outras dimensões do universo. Apesar da dificuldade em descrever cada um dos momentos que viveu com palavras, o personagem consegue aos poucos apresentar o que aconteceu, assim como os passos para repetir as experiências fora das dimensões tradicionais.

Gênero: ficção

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Parte II
Parte III
Parte IV



Cada vez que estou diante do mar negro sinto vontade de mergulhar em sua profundidade gosmenta e cósmica. Sigo os movimentos das ondas com o olhar sem os típicos olhos humanos. Elas me hipnotizam e parecem querer se comunicar comigo. O vai e vem me acalma e danço em meio ao nada. A paz aqui é estranha e tem sempre um ar sinistro e misterioso. Ainda é difícil me acostumar com a ideia de que estou longe de casa e que pouco sei desse lugar que volta e meia me suga da Terra. Na realidade, sequer sei se estou longe ou distante, porque depois da interação com Eles, começo a relativizar distâncias e a própria noção de espaço e tempo.

Pensando melhor, o que sei da Terra? Apenas o que os livros dizem, a ciência, as minhas vivências e experiências sensoriais básicas? Pouco, tão pouco. Não é por menos que quase sempre me via perguntando o que era esse mundo que se apresentava diante de mim e não compreendia.

– Conheço o seu planeta melhor do que vocês imaginam. Estamos há eras observando tudo que vocês fazem e conseguimos ver beleza em tudo que são. – disse uma voz dentro da minha cabeça. Me arrepiei, senti o espírito congelar e a frieza do espaço quase capaz de me transformar em pedra.

– O que você quer de mim me trazendo quase sempre aqui? – pergunto e temo descobrir que a resposta possa envolver algo que sou incapaz de me envolver agora.

– Você sabe. Você sempre soube. Nós interagimos em meio a grandezas e escalas dinâmicas, mas ainda assim integradas. Você sabe tudo sobre mim e eu sei tudo sobre você. Talvez não lembre de tudo por causa da vida que leva agora, por causa da dimensão dos humanos, mas já estivemos juntos em outras eras e planetas.

– Então você está me dizendo que é de outra dimensão, galáxia, sei lá o quê e que a Terra é só uma gota desse mar negro? Eu não sei, acho que é a única associação lógica e fácil que consigo fazer agora.

– Você também sabe que sim. A Terra é um lugar fantástico. Não chega a ser o meu lugar preferido no que vocês entendem como universo, mas tem seus valores. Nós agora estamos em outro sistema, uma outra galáxia, para que entenda melhor. Seu planeta nos é inóspito. Se fossemos aterrissar em seu planeta, morreríamos porque não respiramos o que vocês respiram. Vou tentar relativizar e simplificar para que entenda enquanto humano. Digamos que nossos corpos são de naturezas diferentes. Na minha dimensão não existe nada disso que vocês têm, embora se quiséssemos poderíamos criar igual ou melhor. Há algo fantástico nos humanos que os torna cego e presos a eles mesmos. Vocês sequer conseguiriam compreender nós enquanto seres vivos.

– Não consigo entender bem o que quer dizer.

– Não vou lhe falar, vou lhe mostrar.

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E então, Eles me empurraram em direção ao mar negro e uma fumaça fria e branca cobriu tudo que conseguia enxergar. Parecia um mapa estelar (se é que existe isso) e fui sendo arrastado em milésimos de segundos terrestres para um lugar estranho. Não sei o que isso quer dizer, ou que lugar isso pode ser. O que vejo é um globo denso e ao mesmo tempo tudo inspira leveza. Há frames de lugares na Terra em milhares de faces e possibilidades, vejo tempos da pré-história e tempos que parecem ser os instantes finais. Tudo isso ocupa um lugar minúsculo no meio da esfera gigante. Consigo ver porque sou maior que ela por alguns momentos, o que me deixa completamente confuso, pois sempre imaginei ser um grão de areia no meio do universo. 

– Fascinante, não? O que você vê aí, quase do tamanho de um fio de cabelo, é uma criação completa do que vocês chamam de ‘lar’, do planeta Terra. Para nós, Oziv. Que quer dizer ‘vida diferente da nossa’ nos nossos primeiros dialetos. Hoje não usamos mais códigos verbais como vocês usam. Agora vou lhe confessar algo. Somos apaixonados pela capacidade de existir no planeta de vocês e de como é interessante os seus semelhantes. Várias vezes estivemos lá. Antes que me pergunte como, já que disse que seu ambiente é inóspito para nós, nós criamos um meio de viver e manifestar-se como humano no sistema de vocês. É sempre incrível, é sempre divertido. Os males que vocês apontam são tão bobos, pequenos perto do que vocês são capazes de criar. Vou lhe dizer algo que você já sabe: você sou eu e eu sou você, somos parte da mesma coisa, mas você está como humano e eu, bom, estou como outro ser que em algum momento você entenderá melhor.

– Digamos que vocês podem ser e fazer qualquer coisa em nossa dimensão? 

– Sim, para o entendimento humano, sim. É bom que entenda dessa forma, porque parte de você também cria da mesma forma que nós criamos. 

– Ainda não entendo porque me traz aqui. 

– Nós não trouxemos você, você quem veio até nós.

– Impossível, não conheço vocês. 

– Voltaremos a dizer: você quem nos procurou, apesar de fascinados pelo planeta de vocês e pelos humanos, nós não interferimos em nada sem vocês.

– Não consigo entender. Cada vez que chego à essa dimensão me é dito algo. Há uma mistura de sensações. Ora medo, ora dor, prazer. O que é esse lugar?

– Tudo e nada. O eterno e o efêmero. À medida que você quiser se aproximar de nós, você irá relembrar de tudo, mas há um preço que talvez você não esteja disposto a pagar. 

– Não entendo. Preço?

– Por enquanto você não precisa se preocupar com isso, mas na hora certa, terá que lidar com o que está próximo de se apresentar. Nós temos muitas faces e eu sou uma que você pode confiar, mas não perca de vista que o controle existe e agora não está com você.

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