O último passageiro - Parte V

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O ônibus me fez crer que eu havia estado no novo. A sensação de realização me fez mal, porque ela era mais uma mentira. Sou pura frustração. Convivo com fantasmas que trazem sensações urgentes e me impedem de deixar esse lugar. Não consigo deixar a estação, ninguém me tira daqui.

O meu quarto à medida que se torna mais distante, se torna cada vez mais perfeito. A volta dada pelo ônibus despertou em mim a sensação de mudança, a esperança por paz e realização. Se eu tivesse me atentado, não entraria no ônibus errado. Agora, cá estou outra vez na linha de partida. Por sorte – ou talvez por azar – quando pegamos um caminho errado acabamos retornando à estação. No regresso, no entanto, nunca ficamos exatamente no mesmo ponto, nem sentadas no mesmo banco de plástico. Eu preciso sair daqui! Estou cercada por máquinas que não conseguem me compreender.

Estou sozinha, escutando o eco dos meus pensamentos. Era isso que eles queriam? Conseguiram! A minha única companhia é a esperança de sair da estação, mas reconheço que tenho medo de todos os ônibus que passam agora por mim e que prometem me levar para o destino real.

Eu espero. Continuo esperando.

A estação tem suas luzes desligadas. Sem perceber, num golpe fatal, sou vencida pelo sono. Estava cansada, lembra? Acordo no mesmo lugar. Por quanto tempo dormi? Por quanto tempo estou aqui? A sensação de que um mundo lá fora acontece e que estou presa me deixa ainda mais aflita por mudanças. Eu preciso sair daqui. O dia amanhece, em que ano estamos? As pessoas retornam à estação. Elas voltam a me incomodar e me torno uma velha resmungona outra vez. Já não desejo excessos e sim a solidão.

Entro em mais alguns ônibus durante o dia e, outra vez, a sensação de andar em passos largos me faz mal. Após retornar várias vezes a estação, sem nunca conseguir deixá-la efetivamente, percebo que a cada passo dado, volto mais uns dez. Percebo que estou condicionada e aceitando o papel de última passageira que me foi imposto. Como posso sair? Pergunto seguidas vezes. Quando entrarei no ônibus correto?

A minha única companhia é 
a esperança de sair da estação  
O último Passageiro

As pessoas continuam passando por mim e desaparecendo ao longo do dia. Mas depois de tanto tempo elas já não me notam, pareço não existir. Ainda sou um ser humano? Nenhum me reconhece mais. Talvez nem seja mais uma passageira. Os rostos humanos desaparecem, mas os efeitos da convivência ignorada se tornam mais densos. Horas, dias, meses e anos. Quanto tempo estou presa aqui? Minha única certeza é a de que a estação se esvazia e enche inúmeras vezes. Permaneço no ponto de ônibus à espera de algum que possa me levar. Me levem daqui, é tudo que desejo. Já não me lembro como e quando cheguei aqui e nem da vida antes da estação.

Não sou mais humano? Ninguém me reconhece! Nem mesmo eu sou capaz de dizer o que sou. Se essa estação é parte de um delírio ou sonho, peço e procuro formas de acordar. Eu quero explodir a estação! Que pegue fogo, que me liberte da opressão! Basta! Deve haver um botão de saída, uma palavra mágica e uma sensação melhor do que a da espera.

Dou por mim que estou numa prisão e estou sendo castigado por algo que não sei. Talvez só tenha sido ingênuo em acreditar que na estação encontraria o ônibus ideal para me levar para casa. Mas, a verdade é que não posso voltar para onde não conheço. Não sei se existe um lar. Não sei se tenho um. Talvez eu seja parte deste espaço. Como era a minha vida antes daqui? Tudo está em branco. Nada se completa.

Sorrio com a fé que posso me libertar. 
Mas qual é o ônibus certo? Qual caminho pegar?  
O último Passageiro

Um mundo de pessoas passa por mim e ninguém me enxerga, porém sei que estou seguro com essas relações efêmeras e banais. Talvez seja melhor assim. Sem interagir com ninguém. É seguro. As máquinas me protegem. A única coisa que pode me tirar daqui e me fazer ser capaz de criar memórias outra vez é o itinerário certo, mas onde e como localizá-lo?

Sou a última passageira. Sou o único prisioneiro. Sorrio com a fé de que posso me libertar. Mas qual é o ônibus certo? Qual caminho pegar? Levanto do banco de plástico e sento ao lado da pilastra, apoio a mochila no colo. Leio anúncios colados, alguns de videntes. Elas conseguiriam prever meu futuro e me tirar daqui? Quem dera eu conseguisse vislumbrar um. Estico o pescoço e espremo os olhos. Eles são como poços de água suja, mas com eles o desejo é avistar o ônibus capaz de realizar a minha viagem final: a de despedida da estação.



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