O último passageiro - Parte II

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II

Avisto pelas fendas da estrutura da estação uma senhora aparecer e desaparecer da sacada da varanda de um prédio próximo. As luzes indicam que ela está assistindo televisão. Como queria estar em seu lugar, ter sua vida. Iria valorizar o próprio espaço e, a ação que lhe parece tão banal e constante – a ponto de nem se refletir sobre a liberdade em fazê-la – para mim, seria motivo de felicidade. Eu queria ser àquela mulher. Queria ter uma varanda e uma TV para experimentar.

Cheguei cedo à estação. Ainda havia pessoas passando com certa regularidade por todos os lados. Em determinados momentos, tinha tanto movimento que o excesso me incomodava, a ponto de me tornar uma velha resmungona. Que idade tenho? Você consegue descobrir só pelo que estou sentindo? Nesse momento de solidão, já sinto falta daquelas pessoas com quem fui indiferente.

É impressionante como as pessoas, mesmo em silêncio, podem ser úteis às outras por só existirem e ocuparem o espaço vazio. É a tal segurança existencial. Àquelas conversas que se iniciam a partir de uma pergunta banal, sei lá, sobre os atrasos das linhas, ignoradas propositalmente durante o dia pelo celular, agora poderiam ser úteis. Até mesmo as cantadas dos bêbados dos coletivos disfarçariam o enfrentamento comigo mesma. Quem sabe pudesse contar a minha vida para alguma destas pessoas. Mas o que sei de mim? O que sei do meu lar? Qual a minha história? Talvez sequer tenha existido para os que acredito ter nos ciclos de amigos e familiares. Eles deram falta de mim. Se assim fosse, teriam me procurado. Por que não me procuram?

O que sei de mim? O que sei do meu lar? Qual a
minha história? Talvez sequer tenha existido  
O último Passageiro

Agora, nesse banco de plástico, estou sozinha à espera de algo que me tire da estação. Engraçado que quando se está nela nós nos esquecemos de todos os sons que são banais na vida, porque a promessa é a de que a estadia será sempre curta ou ao menos previsível. Os sons da rua, das crianças correndo, das folhas das árvores em movimento. A gente se esquece de todas as pessoas que já conheceu, mas tem o poder de reconhecê-las, se elas lhe arrancam da inércia e do isolamento. Convém ouvir e reconhecer os outros quando se está refém do silêncio e solidão. Ao menos para mim, sou egoísta.

As pilastras de concreto e ferro e os outros detalhes da estação agora são notáveis. Olhar para esses cantos é perceber que estou num espaço capaz de se mostrar novo a cada instante em que observo com atenção. Meu Deus, porque não saio logo daqui? Por que diabos esse ônibus não passa de uma vez? Teria acontecido algo? Quanto mais permaneço inerte, mais os meus pensamentos ocultos invadem a consciência. Eu não quero eles! Não aceito conviver com eles agora. Me Salvem!

– Por favor! – Grito ao esfregar as mãos no rosto. Respiro fundo, quero sobreviver a mim mesma.

Durante o dia, várias pessoas passaram ao meu lado. Algumas de mãos dadas e outras a sós, apressadas. Cada uma delas parecia ocupar e desempenhar funções no mundo, mas e eu? Especialmente as pessoas acompanhadas pareciam tão completas, seguras e em paz. Novamente me pergunto, mas e eu? O que eu era nessa estação hoje e agora? Uma passageira angustiada à espera do momento de fuga da estação! Não acho palavras para descrever-me. 


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