O último passageiro - Parte IV

| foto: pixabay

Vejo luzes. Seriam as de automóveis? Seria o esperado ônibus capaz de me tirar daqui? Oh meu Deus, agradeço tanto por fugir deste lugar! Começo a agradecer involuntariamente. Quando se passa muito tempo na escuridão qualquer luz parece maior do que realmente ela é. Enfim a luz se aproxima. Os faróis baixam e é um ônibus. Consigo ler o itinerário e então dou por mim que é mais um alarme falso. Mais um para preencher o dia. Dizem que a gente começa a delirar e ver coisas quando se cria expectativas. E, agora, pensando um pouco mais, já não sei se àquele ônibus era real ou mais uma criação minha. E se criei tudo isso? Me sinto rarefeito, sem ter certeza do que estou vivendo.

Fecho os olhos e visualizo o único lugar da casa que me conforta: o meu quarto. A minha cama quente, o cobertor, o travesseiro que durmo abraçado todas as noites. Como estariam sem mim? Se eles não são capazes de sentir minha falta, sinto por eles. Sinto muito por estar aqui. Não queria lhes abandonar. Fecho os olhos e a sensação de estar em casa é real e reconfortante. Meus lábios desenham um sorriso espontâneo no meu rosto atônito, suado e de angústia. Sinto a paz me abraçar aos poucos, sou criança.

Pareço seguro, como àqueles que passaram de mãos dadas por mim ao longo do dia na estação. A imagem permanece latente em mim. Esses minutos parecem uma carga súbita de vida, capaz de modificar o meu espírito. Pareço outra pessoa. A esperança de sair desse lugar ainda consegue me energizar e não me deixa perder a confiança de que tudo ficará bem. Ficará?

Tenho medo de todos os movimentos que 
não posso ver, de continuar esperando e perder tempo  
O último Passageiro

Ao abrir os olhos, no entanto, percebo o insistente silêncio da estação, em uma sinfonia ainda mais intensa. O espaço é escuro e gélido. Eu só preciso pegar o ônibus certo, repito em silêncio algumas vezes. Eu só quero ser transportado para um lugar seguro. Tenho medo de todos os movimentos que não posso ver, de continuar esperando e perder tempo. Assim como tenho medo de sair e de me perder. Seria desastroso. Não quero me perder. Pareço ter escolhas, mas não tenho energia e coragem para decidir. O silêncio me domina e aprisiona. Eu preciso sair daqui!

Qualquer ruído de gente poderia me salvar, mas tudo é silêncio. As máquinas que mantém tudo vivo são a única companhia. Inúteis! A estação é opressora a mim, devia destruí-la! O tempo avança e o preto da noite se torna ainda mais escuro. Não há ninguém tentando conversar comigo ou me vender nada, nem há quem me faça crer na salvação. Agora eu queria ser salvo. Se Deus existe da forma como me disseram mais cedo, por que ele continuaria a me manter aqui preso? Queria sair da estação, queria o meu quarto de volta, único lugar que me aproxima da paz e segurança.

– Ô dona, vai nesse ou ficará aí o resto da noite? – Pergunta-me o motorista sobre eu querer entrar no carro.

Entro no coletivo sem dizer uma única palavra, após recuperar a consciência perdida ao planejar em vão destruir a estação. Me abraço com a mochila e me sento. Estou em mais um banco de plástico e aguardo o destino final. Estou aliviada. A liberdade é mesmo a melhor sensação do mundo. Estou agora em 1946. Ver qualquer coisa diferente das pilastras de concreto me faz notar que há um mundo de possibilidades outra vez. Relaxo e respiro. Sorrio olhando a paisagem banal que se esfrega no vidro da janela do ônibus. Sigo a rota com ansiedade e paz por ter alcançado o novo. Pareço grande e segura como antes. Eu agora sou uma mulher de verdade.

Sigo atenta aos lugares, vamos adiante pelas vias vazias. Não há pessoas nas ruas. As calçadas têm panfletos espalhados que são movimentados pelo vento. O ônibus acelera, os vidros se preenchem de escuro. Tudo se torna conhecido outra vez e, quando dou por mim, estou de volta à estação.

Desço do carro aos gritos e prantos, porque peguei o ônibus errado. De volta a 2017, eu quero sair! Me deixa sair! Me leva daqui, repetia. O motorista observa o meu semblante sem compreender o histerismo. Por fim, ele se limitou a dar as costas sem termos trocado palavras. “A viagem precisa continuar”, deve ter pensado.

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