A consciência de Emma Thompus







Capítulo 3

Maio de 2013

Eu queria ter sido capaz de entender Adam desde o começo. Se eu tivesse essa compreensão não carregaria o fardo e um fio de culpa por tantos sentimentos ruins que provoquei nele. Quando conheci Adam não imaginava nem que ficaríamos tão próximos e que ele um dia iria me amar como nunca amou outra pessoa, como assim ele diz. Não imaginaria que teríamos um relacionamento singular e tão sério para ele. Quando observo esse tempo que vivemos juntos sinto desconforto por notar as coisas que ele fez e faz por mim. No entanto, não sei se o que sinto é culpa ou constatação de que coisas foram feitas. Nada disso, confesso, interfere na forma de eu viver a minha vida.
Hoje o Adam sabe das minhas limitações sentimentais mais do que no começo. Tivemos momentos íntimos e de intenso carinho, companheirismo e admiração. Eu sei que ele sabe que eu tentei melhorar, mas há coisas que são difíceis para mim ainda. Tenho dificuldades em saber exatamente o quê sente ou fiz – mesmo que sem a intenção de magoar – ainda que eu tenha pedido várias vezes para que ele se abrisse para mim.
Adam se abriu, no entanto, não consegui penetrar e me colocar no seu lugar, por isso imagino bem de longe como deve ter sido a dor e o peso dos sentimentos que carregou sozinho durante todo esse tempo, enquanto tentou conviver comigo de forma saudável. Sei também que devia ter poupado ele de muitas situações e sentimentos, mas eu realmente tenho dificuldades em saber se estou ferindo alguém ou não, ou se estou jogando com seus sentimentos. A minha ânsia por aproveitar as oportunidades me faz ferir os outros e eu não sei bem como lidar com as consequências, por isso ele acredita que sou tão fria.
            Confesso Adam, que por um momento pensei em te dar uma oportunidade. Contudo, dei para trás ao perceber que você não é uma pessoa que mereça testes. Não acho que conseguiria te fazer feliz e ser feliz, enquanto me decidia sobre os meus sentimentos e relacionamentos. Você não mereceria uma versão minha tão instável, ao contrário, por ser extremamente generoso e capaz de me amar, apesar de tudo que já te fiz, você merece uma pessoa melhor do que eu, ou, se eu me decidir sobre os meus sentimentos, eu preciso ser uma versão melhor para nós nos relacionarmos. É muito desigual.
            A minha incapacidade em sentir alguma coisa concreta pelo Adam me fez dizer e fazer coisas um tanto pesadas para ele, imagino. Não quis transparecer que seus sentimentos são banais, mas o fiz. Não quis transferir toda a responsabilidade pelos problemas entre nós, mas o fiz. Mas o que você queria que eu fizesse? Eu nunca vivi uma situação assim antes. Embora não tenha mais 17 anos, sei que ainda não consigo lidar com tudo, quando envolve sentimentos. Reconheço também a minha dificuldade em pedir desculpas ou reconhecer que estou errada. Sinceramente não sei se esses pedidos de desculpas resolveriam algo. Acho que Adam espera de mim um sentimento que, até então, não fui capaz de nutrir por ele.
            Olho-me no espelho e toda essa situação não me abate e nem me provoca tantas reflexões. É como se fosse um murmurinho que me impede de pouquíssimas coisas e me provoca pouquíssima culpa. Eu sei que Adam esperava algo diferente disso. Mas eu não sei ser ou ter o quê ele espera. Sou um conjunto de sentimentos dispersos, que muitas vezes, são incapazes de se assentar. A minha ausência de pressa em resolver as questões da minha própria vida se confronta com a minha ansiedade pelo novo.
Nessa tensão conheci o Adam, me envolvi com os dedos dos pés e assim fui para ele: uma mulher com pressa em resolver o que há entre nós, mas ao mesmo tempo nutria e nutro uma ansiedade pelo novo. Não gosto que o Adam imagine que eu o quis deixar de escanteio para uma oportunidade futura, nem que eu o usei e descartei. Porém, sei que fiz isso, sei também que tirei dele tantas impressões e sentimentos. Seria tão mais fácil se eu pudesse ter ficado com ele desde o começo, ao menos teríamos uma história verdadeiramente material e real e eu teria me esforçado mais por um final feliz.
            Ainda me resta um pouco de calma e de esperança, embora ainda seja ansiosa e precise tanto de pessoas ao meu redor para me fazer viver o momento e não pensar nas consequências dele. Apesar de tudo isso, espero conseguir construir uma versão melhor de mim, para dar o quê Adam merece.
O beijo que eu te dei na praça foi uma forma sutil de dizer, que, apesar de toda essa confusão sentimental, eu ainda quero te manter. Só não sei como e para quê, mas diante do que você é e foi para mim, eu te devo ao menos o esforço de um relacionamento mediado pela paz e pelo amor sincero e espontâneo. Eu amo alguma coisa que vem do Adam, mas não sei o quê fazer com isso e nem as consequências de receber isso dele. 

*Este texto é parte da segunda leva de capítulos do seriado Adam e Emma: uma história de (des)encontros.

 

Capítulo 7: O luto severo




  

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