Um amor cru demais para continuar



Capítulo 4

Junho de 2013

A sensação de pessoas em volta os incomodava parcialmente, mas não os impediam de conversar. Olhavam-se num silêncio particular. Pareciam saturados de tudo que estavam vivendo. Seria esse mais um encontro ou a ilusão de um?
– O que incomoda entre nós? – perguntou Emma.
– É essa sensação de indeterminação e efemeridade. Se ao menos eu tivesse um pouco de certeza, não teria tanto medo do nosso futuro. – Adam responde em meio a pausas que indicam dúvida e cansaço.
– Não acho que seu medo seja algo real. Pode ser mais uma coisa de seu imaginário.
A conclusão de Emma incomoda e esboça uma reação em Adam:
– Eu o sinto e acho que sou refém dele. Como pode não ser real?
           – Bom, eu não vou entrar nesse mérito. – diz Emma. Os seus dentes se fecham e seu olhar se perde em meio à indeterminação. Seria mais um sinal de desinteresse ou realmente ela não sabe o que está acontecendo consigo e com o outro?
O silêncio media o intervalo entre um bocejo e um suspiro. Parecem parados em alguma dimensão do tempo em que o silêncio é tudo que existe entre ambos. Um único ruído poderia salvá-los de alguma coisa ainda mais indeterminada.
– Sinto o cansaço em mim. – diz Adam.
– Trabalhou muito no final de semana? – reage ao imaginar que a conversa já teve um fim e que nada mais irá provocar incômodo outra vez.
– Não é disso que estou falando.
– E então...?
– O meu cansaço é o de tentar consertar as coisas entre nós.
– Não há nada entre nós que precise de conserto. – enfim Emma percebe que a conversa ainda não terminou.
– Acho tudo tão desigual e banal. Acabo sempre refém do medo. – para por alguns instantes e respira fundo, ao ponto de seu corpo inteiro tremer – A verdade é que eu não sei se continuar com isso seja o melhor caminho, no entanto, reconheço que não quero deixar você.
– Acho que você está se precipitando ou talvez o fim seja mesmo necessário.
– Não me disse nada de novo. – se estica e esquiva para o lado e observa a sombra de um vaso de plantas – Eu sou de uma geração que descarta relacionamentos. Acho que por isso mesmo estou tendo problema com você, Emma. Estou na margem dessa geração. Não descarto relacionamentos e nem coisas facilmente. Eu prefiro consertar.  Ao contrário de você, que vem descartando nossa relação e vínculo gradualmente, num silêncio e cinismo que me assusta, machuca, oprime e me traz angústia.
– Mais uma vez, está se precipitando e suas conclusões me incomodam.
– O que me incomoda é esse vazio, essa indeterminação. Você sabe o que eu queria agora? Que eu não sentisse qualquer coisa por você. Seria absurdamente mais fácil e justo.
– A decisão é sua.
– A sua maneira de responder a esses sentimentos diz muito de como você vê esse nosso vínculo. Para você é só um descarte. A decisão não pode ser minha, porque esses sentimentos são produto de uma relação densa e que foi feliz um dia, até você iniciar o processo de eliminação. Acho que cansou de tudo e não sabe como lidar com o próprio cansaço. Acaba descontando em mim, que sou puro carinho e amor com você.
– Não gosto da forma que você vê as coisas entre nós, parece tão injusto.
– Injusto continua ser essa relação efêmera. Incomoda-me não haver um porto seguro, equilíbrio e paz. Estou sempre com medo, refém de alguma coisa indeterminada. Machuca conviver com alguém que parece não querer fazer outra coisa, senão usar e descartar. Estou cada vez pior. Você tem consciência das consequências do seu uso e descarte?
– Eu não descartei você. Acredito na gente. Só acho que temos visões opostas de uma mesma coisa.
– Essas frases e justificativas frágeis me incomodam. Está claro que você não sabe como agir.
– Sabe tudo você, hein?
– Sei o suficiente para reconhecer o que me provoca dor. Nesse momento, o efêmero e o perecível entre nós. Acho que já não tenho forças para lidar com isso.
– Acho que precisamos de um tempo.
– Que tempo? Mais um? Voltas serão dadas e continuaremos no mesmo ciclo. O que há entre nós é mais complexo do que essas pausas. Contudo, quem mais sofre sou eu. É sempre cômodo para você depositar tudo em mim e sair como o quem tem razão.
– Acho que agora quem precisa de paz sou eu. Estou sentindo desconforto e algo ruim.
– Mais do que a paz, preciso de qualquer coisa que não seja efêmera. Preciso, na realidade, deixar de ser o seu brinquedo. Como se sente ao retribuir tudo que faço por você desta forma?
O silêncio volta ainda mais denso e cru. O furacão na cabeça dos dois é potencializado. Tudo roda e roda. Estaria ela procurando paz? A indeterminação confunde e oprime sentimentos bons. De um lado se teme o efêmero, do outro não consegue vê-lo, porque produz frequentemente ao ponto de o efêmero se confundir com a vida e relacionamentos que protagoniza. O vazio entre os dois torna qualquer pedaço um elemento para produzir consequências. Como podem conviver entre si com o vazio e o efêmero? Ao mesmo tempo o amor cru transborda. Ele transcende o suficiente para causar medo e desencontros. Talvez por isso a sensação de que um tempo resolveria qualquer coisa. O tempo poderia lapidar esse amor? Entretanto, tal sensação é igualmente efêmera.
– Confesso que não sei o que fazer.
– Confesso que te amo e não quero te perder, mas estou perdendo a mim mesmo nos seus processos de uso, desusos e desmontes.
– Queria saber como resolver tudo isso.
– Eu só queria um final feliz para gente.
– A gente pode tentar consertar as coisas mais uma vez...
– Por você eu tentaria inúmeras vezes, porque acredito em nós dois. Mas esse vai e volta me deixa em pânico e cada vez mais refém da solidão e com medo do indeterminado. Quando eu penso em amor, eu penso em você. Acha isso pouco? O que você sente e espera dessa relação, Emma? Você realmente estaria com disposição para consertar as coisas? Para enfim termos acesso a uma versão melhor de cada um de nós, para viver esse novo estágio de relacionamento? Estaria com disposição para transcender amando?
            Os olhares se cruzam e se conectam. Havia promessa e sinceridade nas palavras e no ouvir. No entanto, o silêncio continua imperando. Algo mudou ou mudaria? O amor cru entre Adam e Emma assusta, porque pode resultar em qualquer outra consequência. Quantas delas estão envolvidas nesse silêncio e no efêmero? 

*Este texto é parte da segunda leva de capítulos do seriado Adam e Emma: uma história de (des)encontros.

 

Capítulo 7: O luto severo

  





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