O 30º Agosto


            No vagão sujo e lotado do trem, Ricardo sente o corpo ser esmagado enquanto respira angustiado. A camisa amassada indica mais um dia de trabalho. Um dia qualquer para o resto do mundo, mas, para ele, véspera do aniversário. Os últimos segundos na casa dos vinte passam a refletir, em forma de crise, no rosto entregue ao mundo.
            Nos anos anteriores era a época de marcar com os amigos. De fazer postagens felizes na internet com hashtags #partiu #acabanãomundão. Dos selfies com marcas expostas e copos cheios. No entanto, agora é diferente. Só agora percebe estar num vagão sujo todos os dias e de que não é a véspera de um aniversário qualquer. Em segundos terá 30 anos e a sociedade estava pronta para cobrar o sucesso prometido.
Ricardo estava preso aos seus próprios regressos, porque o seu tempo nunca fora o social, embora fizesse de tudo para segui-lo. Vaga um banco de plástico no trem. Ao sentar, por algum motivo se lembrou dos seus pais com inveja.  Na geração deles tinham menos escolhas. Talvez menos chances de errar. Agora tinha muitas e percebia não ter quase alguma.
O tempo se tornou o seu maior inimigo, porque era obrigado a viver décadas em um ano. Era empurrado a viver tudo num único dia, porque a filosofia era ‘viver intensamente sempre’. Levou ao pé da letra, como o mundo sempre faz, e embaraçou-se na rapidez. Tudo parecera inútil diante da máxima em acordar cedo e obter o sucesso.
            Do reflexo do vidro avistou um casal. Lembrou-se das namoradas que teve, mas que foram julgadas inapropriadas para casar. Como poderia, se tudo fora condicionado a prazos? Entrou em vários relacionamentos, todos efêmeros. Seus amigos faziam questão de condenar: “Ricardo, larga essa mina, porque o negócio é só pegar”; “Ricardo, você precisa experimentar outras. Não existe amor para sempre, a primeira nunca será a última”.
            Pela promessa de experiência tornou-se escravo do efêmero e das ilusões. Vivia sob o vazio do muito na espera do pouco. Ansiava constantemente por significados que não sabia ler e reconhecer. As luzes se misturavam com a rapidez do movimento do trem, assim como a sua consciência. O vagão lotado lembrava o cansaço e solidão. Ao fazer nada, sentia-se cansado. Ao optar pelo nada, sentia-se culpado.
            Seus pais assistiam toda trilha até os 30 da própria casa. Um tanto omissos ao fato de ele ainda dormir no beliche com o irmão de 17 anos. Eram recuados porque a liberdade era a novidade, depois de períodos de repressão. “Darei o que não tive aos meus filhos”, pensavam. Agora no novo mundo, mais do que nunca tudo passou a poder. Das ideologias apaixonantes às crenças descrentes. Dos contratos quase vitalícios aos de seis meses e sem propósito.
            Ricardo desceu do vagão do trem. Havia fotos expostas na estação. Imagens da geração dos seus pais que não tinham tantas máquinas de fotografar, mas lembranças do tempo particular. Olhou para as mãos e sentiu os seus dedos dormentes. Passara o dia controlando máquinas. Era a vida que escorregava e era ignorada pelos dedos nas máquinas que passam por suas mãos. Sentir qualquer coisa se tornou inútil diante da possibilidade de poder mostrar e de ser aceito.
            Ricardo adianta os passos na estação, como talvez quisesse adiantar a própria vida. Rapidez, rapidez. Quis tanto que chegassem os fins de semana, feriados e as férias, mas não contou com a crise que bateria na sua porta com o tempo. No fim da véspera do 30º agosto de sua vida terá 30 anos. Chegou a hora de a sociedade cobrar o que ferozmente o fez buscar a vida inteira sem descanso e raciocínio. 





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