Já se conectou com alguém alguma vez?



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Quantas vezes na vida você já se conectou? Não. Não falo da conexão naturalizada pelas redes sociais e internet. Falo daquela conexão off-line, transcendente e intensa, que às vezes temos a oportunidade de experimentar quando conhecemos alguém especial.

Tudo bem que hoje essa tal conexão possa ser encarada como algo datado, cafona e romântico. Visto que, em nossa cultura moderna, a conexão entre dois é vista como algo idealizado, impossível, digno de poucos e apenas para os filmes. Essa crença pode ter vindo muito em função da nossa perda de comoção, em meio a esse mundo cada vez mais midiatizado e das relações estruturadas pelas interações nas redes sociais.  Elas limam um tanto da nossa capacidade de empatia e nos torna doutores em negar a própria felicidade, em favor do que o outro vai pensar, ou ainda do que será possível mostrar. Nossa capacidade de negar sentimentos impressionaria qualquer alienígena.

Conexão. Não é sobre aparência, não é sobre corpo, não é a sensação guiada pelas convenções e regras sociais. É sobre aquilo que classificamos como toque de almas. É um pouco a briga da razão com a emoção. Atrás de cada pitada de conexão, surge a capacidade humana irritante de racionalizar e tentar esquematizar tudo: “Mas como vamos ficar juntos?”, “O que vem agora, depois?”, “Será que daríamos certo?”, “E se ele for pelo padrões da sociedade e me negar?”, “E se eu na realidade não for aceito como sou?”, “Ah, mas estamos longe e não poderíamos nem sequer ter uma relação, loucura!”.

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Essa cultura do Ph.D. em se tornar infeliz irrita, ceifa toda a chance da conexão agir por si. Em outras palavras, limita a magia do universo trabalhar. Esse hábito viciante e torturante nos permite nos manter na amargura que vai se disfarçar justamente nas satisfações efêmeras do dia a dia, muitas vezes baseadas na materialidade do ter e do mostrar para o outro. Congrats, humanidade!

No entanto, depois dessa faísca de conexão dos últimos dias, tudo que quero é escapar desse hábito horroroso, que se me contaminar será capaz de ceifar a minha felicidade. “Mas e se for tudo coisa de sua cabeça e uma mera ilusão?”, me pergunta o traço humano que habita em mim a todo instante. A resposta, contudo, é: “agora não importa, só quero me conectar de novo com alguém que considero valer a pena, especial – no sentido romântico dos filmes mesmo. Me sentir infinito por sentir algo diferente por outra pessoa. Quero sentir e explorar a conexão”.

E senti a conexão e não foi algo banal. Não. Não é como nos filmes em que se toca uma música de fundo e os corpos se tocam loucamente. É muito maior e sutil. Você percebe que se envolveu e trocou algo com alguém quando cruza o olhar, e esse cruzamento transmite sensações e vibrações que só a outra pessoa – que está na mesma sintonia – consegue sentir e repassar.

Olhei para você e senti que alguma coisa existia. Ouvi sua voz invadir o ambiente e aos meus ouvidos, quis mais. Quis estar perto, conhecer, lhe experimentar. Saber que gosto tem o seu toque, alongar a sensação do seu cheiro em mim. Tocar.

Não, não sei se é amor, paixão ou qualquer coisa do tipo. Por que precisamos ter uma definição para tudo? Mas se querem mesmo uma classificação fundamentada nessa racionalidade humana insuportável de classificar e mensurar as coisas, posso considerar como início do amor, porque é o amor que toca àquilo que acreditamos ser a alma, certo? Àquele sentimento de infinidade por estar ao lado do outro. O silêncio entre duas pessoas que estão conectadas. O prazer pleno por ter o outro. Sigo experimentando a infinidade da conexão e ela é transformadora. Talvez esse êxtase de se conectar com o outro seja a única coisa capaz de expulsar a racionalidade do humano moderno em se fazer de mestre em ser infeliz a todo custo.

Contemplar. Sentir. Amar. Conectar-se com o outro, abrir-se ao novo e desconhecido. Quantas vezes na vida você deixa essa oportunidade passar?

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