O final de tarde e a esperança pelo novo dia

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Final do dia e o sol escaldante agora parece mais calmo e sereno. Ele deixa um rastro de tons dourados alaranjados em tudo que está ao seu alcance. Os casarões de luxo em ruínas no Centro Histórico parecem beber do dourado por alguns instantes e ganham vida outra vez. Quem de nobre esteve ali e que rastros de história ainda permanecem intactas em meios aos escombros?

Os contempladores do outro lado da cidade estão no gramado verde pálido observando o descanso ilusório do sol e deixando-se alimentar da esperança por um novo dia, quiçá melhor do que este que ensaia acabar.

No raio da minha visão, aviso dois rapazes sentados num banco de concreto. O do lado esquerdo, belisca uma bituca de cigarro e as cinzas se espalham pelo chão. Parece distante. O da direita, gesticula e parece querer convencer o companheiro de que amanhã o dia será novo e melhor. “Um novo dia, outras oportunidades!”. É um pouco daquela esperança viral criada exclusivamente pelo ser humano para aguentar um pouco mais a dureza da vida.

Sinto a intensidade do final do dia. Respiro fundo, o vento sopra no meu rosto e bagunça o meu espírito. Me pergunto: quando? Quando estaremos livres outra vez? Em que momento da história voltaremos a contemplar e viver as sensações de infinidade não presos aos relógios e as engrenagens do sistema? Me sinto desgastado. Idas e vindas e me mantenho preso na rotina. A esperança, até então, é limitada apenas aos bons dias como esse. Os desejos mais profundos e não materializados, são falseados pelas sensações efêmeras de realização. Eu quero mais. Quero a contemplação por inteiro, quero sentir o dia e me sentir parte desse universo misterioso e infinito. Eu quero.

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A luz do sol que a tudo doura em seu caminho, me permite apreciar a beleza do que está sendo tingido pelo seu raio. Queria a liberdade. Saio pelas ruas e deixo o dourado tingir o meu rosto pelos últimos instantes. Liberdade. Sinto a infinidade de sentir-me completo e conectado com o cosmo. Estou aqui, existo e estou pronto para receber tudo de volta. Tudo que julgo merecer. Ahh o final de tarde. Ela nos traz tantas esperanças de um dia melhor, uma vida mais leve e justa. O desejo do dia em que finalmente estaremos livres por completo. Mas só eu sonho com essa liberdade?

Começa a anoitecer. A Lua, se for mesmo vaidosa, aproveita desse meio tempo para se aprontar para o seu turno. Sem pressa, em seu próprio ritmo, pronta para fisgar os mais apaixonados, que vão olhar para as estrelas para se sentir parte desse cosmo infinito. Quantas vezes eles irão se perguntar, diante das sensações infinitas, quem mais está a observar?, O que mais há de vir? Quem tem esperança de um novo dia?

O novo chegará assim também: em seu próprio tempo. Sem pressa, sem qualquer anúncio preciso e formal. Mas os humanos querem precisão, detalhes, números e dados: quando ele chegará, que horas? Quando a liberdade reinará? É urgente!

Seguimos apressados e esperançosos pelo novo. Pelo novo dia em que a esperança pela infinidade não será mais útil, porque os dias por si só serão infinitos. Mas quando, até quando o final de tarde ainda será capaz de nos motivar a crer no futuro?


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