Fincar os pés

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Meus olhos distraídos se fixaram em um ponto qualquer e tudo que desejei foi parar toda a minha vida junto com eles. Estacionar. Fincar raízes. Criar laços. Será que sou capaz de lembrar? As últimas relações têm sido tão efêmeras, as trocas tão frágeis e esvaziadas de sentido e sentimentos. Parar não pareceu uma ideia ruim.

Estávamos ali, prontos para recomeçar tendo como base o desejo de fincar as raízes? A estrada segue longa há um tempo e todas essas coisas que ocorreram não foram de todo mal. Talvez tenha descoberto e entendido que para resolver melhor as coisas, é preciso ter em mente que esse contraste, que é a vida cotidiana, pode inspirar para nos guiar para o lugar que julgamos ser o certo, o que julgamos merecer.

Agora quero fixar-me. Quero aquietar-me. Descobrir alguma coisa de mim soterrada e sucateada em meio às transformações. Quero sentir que posso construir a minha própria casa e, de certa forma, viver os meus sentimentos. Por quanto tempo deixei de viver esses sentimentos por causa da urgência de viver a mudança? Da urgência de viver o hoje, o agora, o segundo... que cansaço! Coisa chata essa de toda hora lidar com a mudança, com os recomeços. Recomecei tanto que o recomeço se tornou vulgar. Se eu continuasse, que energia me restaria daqui um tempo? Todos nós sabemos – uns com mais propriedades do que outros – que essa energia se esgota, quiçá, evapora e leva de nós o que guardamos de melhor para dividir.

Percebo então que os meus olhos não se fixaram em um ponto qualquer por mero acaso, eles se fixam em mim mesmo. Clamam para eu me descobrir. Quantas vezes de fato estamos dispostos a olhar para dentro e lidar com todas as nossas complexidades? Agora parto para esse movimento, agora vou fincar os pés em mim.

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E se a descoberta for assustadora? Talvez no fundo me pergunte. Bom, se ela assim for, não há nada impossível de ser feito e tudo pode se transformar. É de mudanças que vivemos até aqui, não? Se mudei o mundo exterior, por que não mudar o meu interior se assim precisar? O que preciso, de todo modo, é me salvar. Salvar-me do efêmero, do passageiro, volátil e perecível.

Andei cansado de minhas versões mutantes e tudo que quero agora é me conhecer melhor. É, eu sei. Isso tudo pode ser passageiro. Pode ser que amanhã deseje a transformação outra vez, porque atrás de todo excesso de equilíbrio, há o desejo por desequilíbrio. Contudo, não me importo. Uma vez que, depois de fincar os pés e criar as raízes pelo tempo necessário para viver a paz e os sentimentos, mover-se outra vez fará sentido.

Olhei para mim, respirei. Aceitei. Aceitei que uma melhor versão de tudo precisa ser conquistada e construída, e o primeiro passo é permitir que a complexidade vingue e prospere. Parei totalmente agora, porque precisava construir algo para chamar de meu outra vez.

 

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