Ação e reação

| foto: pixabay

Seria o Ele-ela ousados por tentarem entender a lógica de uma ciência pouco lógica que quase sempre lhes impõe dor na interação com os outros? Nada parece simples de ser entendido, mas o temor de estar vivendo em ciclos lhe é real. O Ele-ela divaga em pensamentos inconstantes desde a última vez em que foram tocados por outro. Em silêncio, temem o desconhecido. Com o desconhecido, temem sofrer em silêncio e na solidão por amar e se entregar.  

Por que me machuco todas às vezes em que tento gostar de alguém? Calma, não é a simples reação da mecânica da ‘ação e reação’ das leis da física, porque eu não machuco. Sou inofensivo. Quase um vira lata sem dentes, a ponto de me contentar com qualquer afago. Justamente por isso, sou alvo fácil das presas animalescas que volta e meia fisgam os indefesos, ao sentirem no ar os sentimentos exalados deles. No meu caso, ele foi certeiro no meu coração. Um jato de sangue jorra histericamente pelas garras do predador. Ele responde com um olhar frio ao início do meu processo de desaparecimento do mundo.  

Vejo os últimos momentos da vida passarem por mim mais uma vez. Tudo dói até nada mais fazer sentido e eu sentir que não existo mais. E, então, todo meu sentimento de amor, antes puro, ingênuo e belo, apodrece em meio à terra onde todos pisam. Onde qualquer coisa bela se transforma em feia quando começa a virar adubo. Amores adubam outros? Há beleza nessa tragédia porque há espaço para o renascimento, mas ela não é capaz de encobrir as dores.

Findada a vida conhecida, reencarno. Outra vez aqui no mundo dos selvagens. Pareço esquecer que fui presa de um predador até ser novamente e morrer. Num ciclo: morrer tantas mil vezes, todas inutilmente por amores efêmeros. Estou doente só porque tentei amar?

Não. Eu não quero isso outra vez, mas o predador é sábio. Sabe convencer a presa de que ela não será uma, e, num determinado momento, os mesmos caninos sentem os meus sentimentos no ar. Eles avançam e fisgam o meu eu, me destrói, me mata sem qualquer remorso ou dor. Me faz apodrecer outra vez. Me faz lembrar que o vira lata é alvo fácil e que no fim, não existem fins. Só um eterno ciclo de dores que precedem a cada recomeço. Este, quase sempre, ensaia ser melhor do que o anterior. Uma mentira para se conformar?

Quiçá exista algum recomeço que de fato seja melhor e que faça sentido em uma era de corações trocados virtualmente, mas partidos fisicamente.

Mas olha, ao observar a origem de tudo, acho que me enganei. É tudo ação e reação e o caos é inevitável ao tocar no coração.

MAIS DE ÓTICA COTIDIANA