Golpe do tempo

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Passaram-se 40 estações para que ele se desse conta de que a faceta mais temida do tempo não é necessariamente as marcas físicas que surgem no corpo, mas sim as feridas não cicatrizadas da alma. Àquelas que são provocadas ao longo da existência ao se relacionar com os outros.  

Ele entendeu que à medida que se põe fim em ciclos e se inicia outros, há um desgaste inerente na alma. Este, se não for cuidado, converte a experiência da vida em um mar de amargura, solidão e estranhamento. Ele tinha pavor dessa possibilidade porque o tempo inteiro defendeu o amor e a liberdade. Defendeu a crença de que o recomeço é importante porque ele permite a evolução.

Contudo, o golpe veio das relações afetivas. Por acreditar no amor, sofreu. Por se doar, se feriu e também feriu. Havia culpa por sentir e por não sentir. Aos poucos foi se dando conta de que as estações estavam passando e as feridas cada vez mais profundas. Um golpe do tempo. Quando se olhou outra vez, agora pelos olhos do outro, se assustou ao perceber que havia um deserto em si.

A secura veio dos sentimentos ausentes. À medida que se doou, foi perdendo partes do que compunha seu modo de ver e sentir o mundo. Em meio ao deserto recém descoberto se perguntava: por que não conseguia mais sentir? Seria esse processo irreversível?

Temia e não conseguia entender o que se passava. Percebeu que de tanto se relacionar com outras pessoas e não se reequilibrar, passou a deixar de sentir, acreditar, se entregar. Há pessoas que logo cedo perdem a habilidade de renovação e em pouco tempo tem quase nada a oferecer para as outras quando iniciam um relacionamento. Às vezes, antes mesmo dos 25 já há uma secura sentimental. Ele demorou 40 estações para perceber. 

Contudo, um sinal verde emergiu ao notar que havia esperança de que cedo ou tarde se renovaria e reconquistaria o que perdeu. Estaria certo ou é parte do golpe do tempo acreditar que algo perdido retornará em algum instante?


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