Mundo cotidiano: que mundo é esse?




Que mundo é esse em que vivemos e perpetuamos?

Um mundo em que se matam por tão pouco e por não terem nada.
Um mundo em que olhar nos olhos -- por vezes nos próprios -- é tão escasso como a solidariedade ao semelhante.
Um mundo em que confiança se extingue por notas de cem.
Um mundo em que direitos são sufocados silenciosamente, em plena luz do dia, pelo material e imaterial.
Um mundo em que se deixam de lado escolas, para financiar armas letais ou de guerra.
Um mundo em que algumas crianças não chegam sequer a sonhar, brincar e acreditar que o mundo pode ser bom, como nas histórias que lhes eram para serem passadas. A sua fantasia é trocada por trabalhos subumanos, que passam despercebidos pela realização de poucos. Inocências perdidas, satisfação inútil.
Um mundo cada vez mais superficial assiste às contradições e permanece obediente ou omisso as mesmices cotidianas.
Um mundo em que as crianças permutam da adolescência para a vida adulta cada vez mais rápido, fisgadas pelo que é palpável. Não o bastante, sofrem por um ideal, que as fazem sentir-se à margem da sociedade rotulada -- embora nativamente frustrada -- como perfeita. Acabam doentes por não conseguir alcançar a estética de gente feliz.
Um mundo onde o não é comigo, então ‘tô’ no lucro ocupa cada vez mais as mentes e comportamentos de uma humanidade fruto de tanto egoísmo, cinismo e ações, por vezes, doentias. Paradoxalmente são práticas aceitas socialmente como saudáveis e comuns por muitos. A atual conjuntura nos faz crer que quem foge desta regra é anormal. A culpa é sempre em terceira pessoa. É ele, não eu.
Um mundo onde as pessoas acham bonito ser estúpido, passar para trás os mais humildes e a delicadeza e assistência quase desaparecem. Quando retornam, inevitavelmente, se tornam motivos para desconfiança. Alguém consegue confiar no outro? Alguém consegue ouvir e se ouvir? Quem tem se importado com isso frente às necessidades imediatas tão esmagadoras?
Um mundo onde a pobreza e sofrimento dos mais humildes se tornam elementos para o riso. Quando não, motivam o ódio, o racismo, a segregação. Há àqueles que se acham superiores, mas que em sua superioridade não conseguem resolver problemas antigos. Pioram a situação na difusão de tantas opiniões incoerentes, principalmente quando ocupam lugar de visibilidade.
Um mundo em que você lê um texto como este, concorda, sente medo e deseja um pouco de paz. Mas, passado alguns minutos, tudo se oculta com artifícios já previstos, por um cotidiano que tenta vencer pelo cansaço a multidão que deseja uma humanidade mais humana.
Por fim volto à mesma pergunta: que mundo é esse? A humanidade parece estar à beira da falência do seu próprio espírito humano. Esta é uma das faces duma realidade complexa, repleta de buracos vazios. Assusta e perturba, porque é o ciclo de um cotidiano qualquer. Talvez nunca tenhamos sido tão grande como o espírito humano que, paradoxalmente, acreditamos existir. 
O desafio será contínuo em tentar resgatar o lado humano que estamos perdendo por tão pouco. Pode parecer ingenuidade, mas reincorporar o nosso próprio espírito humano é quase uma condição de salvação, nesta ou em outras vidas. Com tanta capacidade de transformar realidades, por que insistir em modelos que nos oprimem enquanto humanos? É mais fácil mesmo receber e viver na opressão, por que no fundo se deseja oprimir?
Começar parece difícil, mas vencer dificuldades é a nossa obrigação. Exemplos positivos já tempos, precisamos expandi-los. Já os negativos, bom... este texto trouxe alguns deles que no fundo desejava que não existissem. E se levarmos a ideia adiante em querer mudar o que parece impossível, seria o caminho? Parece melhor do que se trancar e pedir por dias de paz sem cultivá-la. Parece mais útil do que terceirizar a nossa responsabilidade.
Mudar o nosso comportamento e visão de mundo é só o começo para invertermos a pergunta: quemundo é esse? para que mundo podemos (re)construir? Não é um cenário pós-guerra, mas o nosso cenário é de constante devastações (i)materiais, por isso tudo preocupa e a urgência é literalmente latente. 


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