A calçada


Escrevíamos nossos nomes na calçada com giz e deitávamos para observar os desenhos das nuvens, em dias de sol e céu azul claro. Relembro com saudades as nossas conversas de fundo, as particularidades de cada encontro, os sonhos e os planos para o futuro. Saudades de um eu e saudade de você.
Tantos anos depois, na velha calçada, não há mais os nossos nomes: restaram apenas as iniciais. Talvez tudo mude mesmo e só mantenhamos o essencial para o auto-reconhecimento e sustento das particulares, além das seletivas lembranças - úteis no presente. O passado parece tão mais leve e melhor hoje, agora que ele é conhecido e superado.
No vago pensamento, a sua imagem parece mais do que uma mera nostalgia. As nuvens que um dia observamos, hoje, a cada instante, são perfuradas por aviões. Outros tempos. Tudo realmente mudou. Inclusive você. Prometemos sempre relembrarmos àqueles dias, mas nem sequer lembramos quem e o quê fomos noutros tempos. Naqueles tempos. As iniciais permanecem intactas na calçada, embora possamos não nos reconhecer quando estamos lado a lado. Mas até quando permanecerão?

Tudo se resume a incertezas e lembranças vagas de um tempo. Talvez seja isso que tenha restado em meio a tantos verões quentes e invernos severos distantes de você. Quem sabe amanhã cedo alguém pinte a calçada ou outras pessoas escrevam algo nela. E aí as nossas iniciais serão eternamente apagadas e esquecidas, como no fundo talvez desejássemos.

Desconhecidos, amigos, amantes, não importa. A lembrança é assim mesmo. Um dia visualizamos os seus detalhes, no outro, para sobreviver, esquecemos

# Footnote:

A minha ausência do blog irá acabar muito em breve. Peço desculpas aos amigos pela ausência. Tão logo tudo voltará melhor do que antes. 




Um novo ano começou.
Vinicius Gericó [blog]: O mundo pós-pseudo apocalipse, é o mundo das mudanças urgentes



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