Ninguém (Parte II)




II


Abro os olhos e vejo luzes fortes e paredes assépticas. Noto que estou usando uma roupa que não é minha. Não vejo marca de ferimentos algum no meu corpo. Esforço-me em decodificar o ambiente e vejo o meu braço e pernas estirados. Estão inteiros e sem sinais de feridas. No entanto, como é possível, se na noite anterior eu estava puro sangue? Acordei num hospital ou teria morrido? Ao lado da minha cama há alguns dos meus pertences deformados e sujos. Eu de fato parecia viver num mundo real e material e estava me dando conta disso. A minha vida estava salva? Ela já esteve perdida? Sentia minhas pernas e braços se mexerem normalmente. Contudo, meu corpo ainda estava sensível, principalmente o meu espírito, que continua à sua espera.
Faço esforço ao tentar lembrar-me do que aconteceu desde que percebi que o meu corpo e lataria pareciam se tornar um só. Nada concreto consegue se firmar em minha mente, mas as minhas lembranças do desejo de ouvir você permanecem. Parece irracional eu te querer neste momento de desespero, mas quero. Quando terminamos um relacionamento o pior de todos os fantasmas é a saudade e o impulso por compartilhar as coisas que acontecem. Se eu tivesse mais alguém que me trouxesse a sensação de segurança, poderia ser mais fácil. Eu não iria recorrer a você. Entretanto, cá estou diante de uma cama, num hospital e provavelmente com algum prejuízo na conta bancária, mas nada disso parece me incomodar mais do que a vontade em ter você por perto. Alguém teria avisado a você o que aconteceu comigo? Você iria vir me visitar? Que tipo de coisa passaria em sua cabeça? Com a possibilidade da perda, finalmente despertaria algum sentimento menos efêmero? Quero levantar, quero saber como está o meu rosto, será que está tudo bem? E se você me visse com um rosto diferente do que estava em suas recordações? É fútil pensar na minha aparência, quando aparentemente sobrevivi a um acidente, mas não consigo imaginar outra coisa. E se você me visse assim? A minha preocupação se expandia e o medo também.
Sento na cama e aciono o botão para que alguém possa vir me assistir. Espero ansiosamente pela chegada de qualquer rosto que indique que estou de fato vivendo uma vida no plano material e de que está tudo bem.
Ouço passos e a porta é aberta. Uma mulher de cabelos castanhos claros e algumas mechas brancas, reflexos da idade, entra no quarto. Sua pele indicava alguns anos de idade e sua boca tinha um batom vermelho claro quase imperceptível. Supus ser a enfermeira. Ela me encarou por alguns instantes e parecia pálida. Os seus olhos, também castanhos, indicavam espanto. Ela pôs as mãos na boca e se aproximou de mim:
– Você acordou! Isso é uma ótima notícia.  – Ainda incrédula, colocou as mãos em uma das minhas. – O seu carro capotou, mas você não teve nenhum ferimento grave, está tudo bem.
Há pouco interesse de minha parte em saber detalhes do ocorrido, por enquanto. A minha única preocupação agora é em como você poderia me ver. Não gostaria que os seus olhos não conseguissem ver a beleza que irradio – Enfermeira, você poderia me conseguir um espelho?
– Está tudo bem, mantenha a calma. O seu rosto está em prefeito estado. Você só esteve dormindo.
– Não existe perfeição quando se rola infinitamente no banco de um carro. – Digo-lhe num tom sério, porque a ansiedade pelo espelho me dominava. Havia inúmeras perguntas surgindo em minha consciência agora e logo começo a dar sinais de que as respostas são uma necessidade vital para mim. Mas algo na fala dela repentinamente me volta à consciência e me chama atenção. – Por quanto tempo dormi? Alguém me procurou?
A enfermeira observa meu semblante por alguns instantes e, num tom apaziguador, responde:
– Algumas coisas aconteceram enquanto estava dormindo, mas fique em paz, deixe a tranquilidade se instaurar que tudo está bem. Vou providenciar alguma coisa para que possa comer.
– Espera um pouco, como assim “enquanto estava dormindo”? Quanto tempo se passou desde o acidente? Eu estou dormindo há quanto tempo?
– Repito que é preciso que se acalme e descanse mais um pouco. Você realmente precisa se recuperar. Pode haver fraqueza no seu corpo.
– Eu tenho direito de saber quanto tempo estava dormindo, por favor! – digo olhando-lhe nos olhos quase em prantos.
– Quatorze meses.
– Quatorze meses?
– Sim, mas tudo está bem. Seu caso nos foi um desafio, porque entrou em coma sem aparentemente nada ter atingido o seu cérebro. Você estava dormindo. Um sono profundo que ninguém compreendia. Quando seu carro capotou você teve apenas alguns ferimentos leves, mas nenhum dano grave em seu corpo. Nós tentamos te reanimar de diversas formas, mas você não reagia. Seu corpo permanecia funcionando normalmente, mas você continuava ausente de consciência. Infelizmente, você esteve dormindo durante esses meses.
– Essa história me parece confusa, não me parece algo aceitável. Não sinto que quatorze meses passaram. – paro por alguns instantes e dou atenção às folhas de uma planta, próximo à porta do quarto. – Alguém me procurou?
– Não. Infelizmente, ninguém. Você é deste estado? Alguém sabia de sua viagem? Estranhamos que ninguém tenha procurado você e não conseguimos localizar seus familiares, porque os documentos do seu carro se perderam no acidente. Nós temos o seu telefone, que está bloqueado para acesso à agenda telefônica, porque não temos a senha. Anunciamos o seu caso na TV local, mas não obtemos nenhuma resposta.
– Não consigo me lembrar para onde eu estava indo, só me lembro do carro capotando e várias coisas se passando em minha mente. Quem manteve paga a conta do hospital?
– Você está num hospital público. Não há conta.∞     








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