Abraços de carvão



Só havia passado alguns dias desde a última vez em que nos vimos e nos falamos. Pareceram meses, porque não havíamos nos despedido. Talvez por isso tenha estranhado o abraço apertado que te dei. Minhas mãos passearam pelas suas costas e senti a quentura do seu corpo por alguns segundos. Foi bom. Precisávamos disso. Você deve ter estranhando também os dois beijos seguidos, algo raro, já que nós nos vimos há tão pouco tempo.

O que lhe parece estranho, para mim foi um ato simbólico de tentar nos salvar. Quis aquecer e manter o relacionamento que criamos instintivamente, sem nos darmos conta do que fazíamos um com o outro. Não me dei conta de que precisava de você e nem você de mim. Nosso vínculo pela convivência intensa e contínua passava despercebido. Tínhamos um ao outro e não nos demos conta do que fazíamos a nós mesmos.

Meus braços apertavam você com força, enquanto sentia o meu corpo junto ao seu. Parecia tudo quente outra vez. Estávamos realmente próximos? O abraço poderia reaquecer àqueles meses frios em que sentávamos lado a lado e não nos olhávamos? Àqueles dias sem sorrisos e sem histórias compartilhadas? Não trocávamos energia e parecíamos marcharmos para o nosso próprio velório. Por que desacreditávamos tanto em nós mesmos? A quem ou o quê estávamos sepultando? A nós? O nosso relacionamento? As expectativas? Ou àqueles dias, meses e anos de convivência intensa que pareciam infinitos, porque assim nos sentíamos, quando estávamos aquecidos?

Pergunto-me porquê então me mantive na posição de te abraçar forte. Por que senti necessidade disso hoje e não antes? Talvez porque ainda esteja amando ou pela existência do sentimento de proteção a nós mesmos, principalmente a proteção por você, mesmo que não perceba o quão quero o seu bem. Acho que descobri o amor real. Não sei explicar o que mantém esses impulsos de tentar nos salvar, nem o quê isso tudo pode trazer um dia. Ainda é cansativo manter tudo por dois. No entanto, tudo que eu sei é que a nossa conexão é muito mais complexa do que fazemos de conta acreditar.

Ao menos hoje estou feliz – disse Adam, em voz alta, para si mesmo ao continuar o monólogo: o abraço forte, que imaginava várias vezes te dar – mas em todas as vezes que pensei em entregar, você me machucava e eu desistia no caminho – foi entregue. Espero que junto com ele, a esperança de que superemos o mal que fizemos a nós mesmos, porque no meio disso tudo existiu amor e nós saímos feridos. Éramos apenas eu e você, entregues a espontaneidade em ser quem somos. Talvez por isso exista a salvação de algum sentimento que não sabemos e os nossos abraços sejam de carvão.



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