O adeus ao Orkut



Internet é mesmo um terreno de surpresas. Se alguém de hoje soprasse no seu ouvido em 2006, que as coisas seriam bem diferentes oito anos depois, dificilmente você acreditaria. Somos resistentes a crenças que nos tirem a sensação do eterno e da continuidade.
Mas as coisas se mostram frágeis, sujeitas a movimentos involuntários a esse terreno de surpresas. O Orkut chegou à internet em 2004. Os desenvolvedores da rede não sonhavam com o sucesso em um país fora do seu. E assim foi. Chegou a ter 70 milhões de usuários no mundo e era a rede brasileira de maior expressividade, como nenhuma outra.
Por um tempo, enquanto o acesso à internet crescia no país e tudo era novidade, lá pra meados da primeira década dos anos 2000, ter um perfil no Orkut era sinônimo de ter internet, de conexão com amigos. Quantas pessoas não reencontraram seus amigos da escola? Do trabalho? Da cidade que não se morava mais? As comunidades aproximavam, como também separavam. Ocorria de tudo nesse processo de encontrar amigos antigos ou fazer novos. São eles, os amigos, que acabam sustentando as redes sociais.
Há amizades efêmeras, que não demonstram ser, enquanto há proximidade. Mas um belo dia tudo muda e velhos amigos se tornam desconhecidos. É um pouco o que acontece com o que vem para internet.  Contudo, a melhor rede social ainda é a que os seus amigos estão, ou pelo menos, onde há mais possibilidades em conhecer pessoas.

O Orkut se despede, e como muitas coisas que deram certo na década passada e já não dão mais, vai deixar lembranças, como tudo. Quantas pessoas não passaram madrugadas nos fóruns ou trocando mensagens com amigos ou paqueras. Os depoimentos, prova de carinho, confissão e tantas outras coisas. Quem diria que a foto do churrasco e no espelho, as frases de autoafirmação e clichês, se tornaria sinônimo de breguice? Os novos amigos, os namoros virtuais, paqueras, nomes criativos em fontes até irreconhecíveis. Quem diria, tudo passa. As doze fotos do álbum público eram pensadas, escolhidas a dedo, legendadas. Que tempo diferente das selfies constantes de hoje.
Se alguém tinha medo de por onde estudava no Orkut, os tempos hoje são outros. A nossa ideia de privacidade também. Mas não é o fim do mundo e nem poderia ser. Não adianta render-se a um discurso nostálgico na tentativa de resgatar e provar que um tempo que já não existe é melhor do que o atual. Não adianta encontrar formas de rejeitar o presente, por causa das representações passadas.
Uma geração cresceu com uma rede social, outras não, outras cresceram e crescerão de outras formas. Não vamos muito à frente julgando o passado. Não se pode competir com o que já é conhecido, com a lembrança e saudade. É injusto.
De qualquer forma chegará a hora da despedida formal. A hora de apagar a luz e seguir em frente, mas sem esquecer que tudo é um terreno de incertezas. Guarde bem as suas recordações, mas não se apegue a elas. Se há um conselho bom a ser seguido em meio a mudanças que podem ocorrer sem nem percebermos, é o de manter quem a gente gosta sempre perto da gente.
Se o contato será via Orkut, Twitter, Skype, Facebook ou WhatsApp, não importa, quem faz a nossa rede social somos nós mesmos. E é bom que assim seja, que não sejamos dependentes de alguém que controle as nossas possibilidades de proximidade e interação com o outro.
É hora de apagar a luz e acender outras.  Particularmente, acho que todos nós deveríamos manter os nossos perfis até o último dia. É uma forma carinhosa e românica de ser o último a apagar a luz, ao se despedir da rede social que nos trouxe tantos bons momentos. Uma forma sutil de dizer, mesmo em tempos de timeline controlada por outros, que ainda somos donos dos nossos próprios relacionamentos. 



Comentários

  1. Gostei do toque pessoal que você deu a despedida do Orkut.

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