Sem registros de história*

| foto: pixabay

Eu vejo rostos, mas não sou capaz de reconhecê-los. Parte de mim sabe que eles são de alguma era passada, de um tempo cuja aproximação entre os homens era maior do que a de hoje. No mesmo instante, nomes se sobressaem e surgem como flashes relâmpagos. Alguns deles são jingles, outros chamamentos carinhosos com quem dividi intimidade.

Contudo, assim como os rostos, pouco reconheço. Na realidade, não reconheço nada. Não sou capaz de entender os fragmentos de história que passam por mim. Não sou capaz de ler os fragmentos de minha história, porque desaprendi a ver importância nelas. E não. Não é como andar de bicicleta.

Talvez tenha aprendido a enterrar o passado tão bem que qualquer coisa que emerge dele me é desconhecido. Pode, inclusive, ser visto até como risco. Quem precisa de passado e lembrar-se dele hoje em dia? Foi ensinado a minha geração que o passado não importa, que o que realmente vale é o agora, o futuro, o novo, a acumulação, o material e o mérito. Bebi dessa filosofia e, pelo que percebo, a ponto de esquecer as experiências passadas a troco de outras que sequer sei se existem.

Uma armadilha me fez de vítima e eu só me dei conta agora porque cheguei ao futuro. A cada vez que se esquece do passado são dados passos para atrás. Porque quando se esquece o que passou durante essa breve estadia terrestre, ou o que foi vivido por outros, se corre o risco de fazer de novo. Se essas experiências esquecidas resultaram em erro, voltaremos a errar pelas mesmas coisas. Um ciclo infinito: acordando todos os dias e revivendo as mesmas histórias. Sofrendo temporariamente e eternamente pelas mesmas carências. Reféns do tempo, de relações efêmeras e das mesmas lógicas materiais. É a vida moderna, não é? O que restará de tudo?

Na condição de bicho humano preciso de minhas lembranças, do meu passado, de ter uma história. Não para guardar mágoas ou me tornar amargurado a ponto de não conseguir oferecer nada novo ou bom para alguém – ­consequência fatal das frustrações e negatividade que vieram da dor do que vivi. Ao contrário: o passado, as lembranças e a própria dor superada servem como experiências. Elas são nobres porque são como um pilar para edificar um eu verdadeiro, quiçá mais forte, apontado para algo realmente novo e para o futuro.

Não se pode esquecer o que passou totalmente. Não se pode enterrar pessoas de uma hora para outra. Erro comum dessa lógica moderna que a tudo transforma e valora como posse, bem material e consumo; acreditar que a distração pelo novo será sempre a base para seguir adiante. Erro fatal acreditar que fazer circular e movimentar o que se ganha vendendo o tempo é a saída para as chagas que se formam ao longo da estadia neste planeta (inclusive ao vender o tempo). Nos estão ensinando errado.

Limitados. Estamos cada vez mais fadados a permanecer vivendo em ciclos, zonas de conforto, e para usar um termo mais na moda, em bolhas. É o agora que vale, não é? É a promessa de uma vida difícil e sofrida para um descanso no paraíso que importa, não é? É a beleza na pobreza e sacrifício que valem, correto? Fiéis? A quê?

Indo e voltando como formigas, seguindo uma ordem maior que sequer se reconhece a origem ou fim. A ordem é imponente, pesada, estruturada e ramificada. Enfileirados, comportados e civilizados. Produzem e reproduzem. Dominam um grão de areia que acreditam ser do tamanho do universo. Se afastam e se escondem se mostrando todos os dias. O produto e consequência disso? Não sei dizer, só observar. O caos emerge justamente nos momentos em que não se há registro de história.


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Especial abril:
Antologia Alfa e Ômega

Neste mês de abril, selecionamos textos que abordam o fim, o recomeço, o tempo e a existência humana em meio aos paradoxos do tempo. 





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