Infértil

| foto: pixabay


Vago por estradas de barro e avisto um buraco vazio onde provavelmente existiria a janela de um casebre em meio ao clima seco e desértico. Me aproximo e salto em direção a ele. Com a força dos pés, fisgo o chão num pulo e me reequilibro para não cair. A casa tinha tijolos de tons pasteis que, quando o vento soprava, imitava sons do mar. Em mim, eles provocavam estranhamento e a certeza de que agora tudo é diferente. Estou em outro lugar, nova etapa da vida e bem distante de tudo que um dia quis para mim.

Escrevo no tijolo o nome de uma pessoa querida. Não faço isso por saudade, mas pela necessidade de lembrar de qualquer coisa diferente daquela que agora é a minha realidade degradante. Escrevo para sentir vida, para simular que vivo uma. Isolado, os efeitos da cidade grande ainda estão em mim. Vivia a mudança, mas não lidava bem com ela. Quando parti, até imaginei que a adaptação traria dor, mas quando me deparei com ela fui dominado pela intensidade.

Fora do casebre, três cachorros com pelos surrados fazem a segurança do que agora é o meu lar. Eles descansam a cabeça nas próprias patas à espera de qualquer migalha de comida que alguém possa lhes deixar. “Mas nem tenho para mim, imagine para eles”, resmungo. Os cães são rápidos e reagem aos passos de estranhos com latidos agudos e insistentes. Devo estar seguro com eles ao meu redor, mas não de mim mesmo.

O vento sopra novamente no casebre e um oceano se faz presente nos sons dos tijolos. Assusta-me que o tempo está passando, que logo será dia outra vez. Tenho medo das noites, que aqui são tão escuras e solitárias, tenho medo da solidão que se alastra em meu ser, no meio deste lugar pouco habitado. Deveria temer se os cães lá fora me protegem? Não sei, porque nesse canto escuro do mundo de tão poucas vozes, tenho medo do que a minha mente pode inventar e me fazer acreditar. É um deserto de solidão.

Sinto falta da cidade grande? Talvez. Acho que mesmo estando sempre sozinho nela, ainda assim há ilusão de que existe vida e algo além de mim mesmo. Inclusive, capaz de dar o aval de que existo. Aqui, no deserto, não há nada além de mim. Uma pena os cães não entenderam a minha língua para me dá a certeza de que existo. Pouco a pouco sou devorado por pensamentos solitários. Pouco a pouco me torno o próprio deserto: infértil e sem sinais de transformação. 


MAIS DE ÓTICA COTIDIANA