Fora do padrão

| foto: pixabay

O mundo passa por mim em câmera lenta e mesmo assim não consigo fisgar qualquer pedaço para chamar de meu. Estou no matadouro porque, mais uma vez, me impus a esse ritual de encontrar desconhecidos ou conhecidos superficialmente por aplicativos de relacionamentos. Sou pura instabilidade diante da possibilidade de rejeição em mais um encontro.

Enfim nos avistamos na praça pública movimentada e trocamos os primeiros olhares por alguns instantes. Os olhos dele tentavam disfarçar falsamente a surpresa com o que viu. O que será que esperava? Alguém diferente ou alguém com os filtros de cachorro e gatinhos do Snapchat? Meus olhos, ao contrário dos deles, irradiavam o medo do que estava por vir. Naquele breve segundo em que cruzamos, quis desaparecer do universo.

Ele me abraçou meio desengonçado. Meus olhos fitavam um desconhecido que passava por mim a poucos metros. Me perguntava mentalmente o porquê de me submeter mais uma vez a isso. O ganho era previsível, mas como conviver com àquela sensação amarga do arrependimento? Desfaço o abraço e falo qualquer coisa sobre o dia. Meu desejo é o de sempre: ir embora. Quero me esconder de todos e de mim outra vez. Desejo me anestesiar com qualquer coisa que não seja gente e que não lembre que seres humanos existem e que eu também.

Não me escuto e permaneço ali. Teimosia. O mundo passa cada vez mais devagar. As horas se acumulam de forma arrastada e a cada minuto que evaporava no vazio, crescia a expectativa de que o fim estava próximo. A possibilidade de liberdade me traz estímulo suficiente para não me levantar e ir embora. Se o encontro acabasse, poderia voltar a ser eu, me isolar. Há satisfação em mim por algo?

Divago diante de um sorriso alvejado cheio de dentes que se mistura com falas sobre qualquer coisa que não retém minha atenção. Imagino como seria poder voltar no tempo e transformar meu corpo. Como outra pessoa, poderia retornar ao que agora é passado, com um corpo repaginado e espírito renovado.

É inútil, eu sei, imaginar como seria a vida cujas coisas acontecem de forma menos arrastada e sofrida. Apesar disso, é confortável imaginar-se com a sabedoria de quem sofreu e foi constantemente oprimida. Imagine a perfeição: o conhecimento de alguém que sofreu em um corpo desejado por todos. Queria. A transformação me salvaria desta rejeição.  

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Ninguém mais seria hostil comigo pela minha aparência, nem as revistas iriam impor nada a mim. Me pego, em pleno século 21 desejando ser padrão. É tão mais fácil conseguir amor, trabalho e reconhecimento quando se é um. Estou cansada de tantos encontros com os mesmos desfechos. O erro sou eu ou erro por tentar ignorá-lo? Eu sabia que nada daquilo seria possível.

Tudo que poderia fazer para salvar os minutos que me restavam ao lado do desconhecido era tentar fazer a experiência valer a pena. Queria me alegrar com algo. Como desejava me apegar às poucas coisas que me fizeram bem neste mundo, que não machucaram e nem que as que exalavam rejeição.

Abaixo a cabeça e percebo que elas parecem tão distantes de mim, indisponíveis, imersas numa dimensão própria, salvas de mim e do senso destrutivo que opera ao ceifar cada pedacinho bom que vislumbra um dia ser grande. Que mundo é esse que me faz acreditar que há algo errado em mim por não ser como os padrões impostos? Que mundo é esse que me aprisiona ao me encarar no espelho? Minha dor é aguda, itinerante, e se amplia nas facetas deste encontro.

O que estou fazendo aqui? Ele mal me olha nos olhos, não tocou em minhas mãos em nenhum momento e não sente desejo e empatia por mim. Como fui tola ao me expor, ao acreditar, ao me permitir sentir e vir a este encontro. Quero partir, quero me isolar.

Queria acreditar que tudo pudesse ser diferente, mas sabia que em algum momento deixaríamos de conversar todos os dias, até nunca mais sabermos notícias um do outro. Se virarmos uma notificação ainda assim será por milagre. Nos veremos nas ruas, talvez nos cumprimentemos de longe, até finalmente fazermos questão de nunca mais reconhecer qualquer traço no rosto e espírito. Assim, de uma vez por todas esquecerei este encontro opressor.

Chego em casa e agora estou deitada na cama. Olho para uma estante de livros empoeirados e em seguida fecho os olhos. Despida totalmente da minha autoestima sou dura: sabia que tudo terminaria assim. Choro até soluçar. Fomos embora sem abraço ou beijo de despedida. O que recebi foram promessas inúteis que mais ganhariam forma na vida que gostaria de ter do que na real. A vida que espero experimentar desde que tomei consciência de que o mundo pode ser hostil. E ele é com quem está fora dos padrões. Solidão


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