O 30º agosto #repost


| foto: pixabay
No vagão sujo e lotado do trem, Ricardo sente o corpo esguio ser esmagado enquanto respira angustiado em meio à multidão. A camisa amassada indica mais um dia de trabalho. Um dia qualquer para o resto do mundo, mas, para ele, véspera do aniversário. Os últimos segundos na casa dos vinte anos passam a pesar na alma. A crise chegou e ela está estampada no rosto suado que entrega ao mundo.

Nos anos anteriores, a véspera era a época de marcar com os amigos. De fazer postagens felizes na internet com as hashtags: #partiu #acabanãomundão, das selfies com marcas caras sendo expostas e copos cheios de bebida. No entanto, nesta é diferente. Só agora percebe fazer parte de um vagão sujo todos os dias e de que não é a véspera de um aniversário qualquer. Em segundos terá 30 anos e a sociedade estava pronta para cobrar o sucesso prometido.

Ricardo estava preso aos seus próprios retrocessos, porque o seu tempo nunca fora o social, embora fizesse de tudo para segui-lo. Um banco de plástico no trem agora está vazio. Ao sentar, por algum motivo, se lembrou dos seus pais com inveja. Na geração deles tinham menos escolhas. Talvez menos chances de errar. Agora tinha muitas e percebia não ter quase alguma.

O tempo se tornou o seu maior inimigo, porque era obrigado a viver décadas em um ano. Era empurrado a viver tudo num único dia, porque a filosofia era ‘viver intensamente sempre’. Levou ao pé da letra, como o mundo sempre faz, e embaraçou-se na rapidez. Tudo parecera inútil diante da máxima em acordar cedo e obter o sucesso.


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