Coleção de 'matches'




Demos match e logo o hálito quente é borrifado em meu rosto e os longos cabelos são tocados com precisão. Antes de tudo acontecer, somos objetivos e pouco entramos na vida pessoal. Dez, vinte ou trinta minutos? Pouco importa quanto tempo durou. Meus olhos, em um dado momento, me encaram no espelho do quarto e revelam a nudez e confusão.

Caio em mim outra vez e interrompo o cochilo. Essa é deixa perfeita para abandonar o quarto impessoal que estou. Em meu corpo, há sinais de que tive momentos de intimidade com outra pessoa. Ainda em meio a sujeira, pressinto que esse incômodo físico irá ser convertido em uma sensação ou sentimento. Arrependimento. É provável que permaneça mesmo após um banho. Talvez agora esteja a ponto de me aprofundar na razão de ter feito tudo que fiz. Por que aceitei vir até aqui? Não me bastava só e então segui meu instinto de defesa? Grande coisa.

| foto: pixabay

O outro permanece dormindo de boca aberta. Ronca e baba em cima do cobertor branco quase amarelado. O que há nele de conhecido, além do físico? Ele se vira para a outra extremidade da cama onde vários outros deitaram e suspiraram antes de mim e abraça o travesseiro. O combinado é não se apegar ou importar. O que vim procurar nesse lugar? Sequer me lembro ao certo o nome de quem me envolvi há algumas horas.

É prático. Demos match e eu procurava um orgasmo imediato. Recebi. Sabia desde o início que seria assim. Nada duraria. É mais uma relação que não se forma, tampouco vinga e se completa, porque bebo da secura de não compreender quem sou.

Minha geração trata com normalidade esses encontros casuais e sei que são. Não há nada de errado neles. Época da liberdade sexual e quebra dos tabus, maneiro. Que tudo e todos possam se pegar à vontade. Mas tudo é tão estranho para mim: trocar fotos, cuja maioria delas são selfies, para receber o sinal verde para se ver pessoalmente. Com um desconhecido o estranhamento em mim é constante, principalmente depois de cada saída.

| foto: pixabay 

Visto-me e começo a ir embora sem anunciar a partida. Sei que nos próximos dias em meu telefone não haverá qualquer outro sinal de que um dia nos conectamos e estivemos juntos, mesmo que por breves e rasos minutos. Esse encontro provavelmente nunca terá acontecido para ele e, em um dado momento, pode ser até que outro match aconteça. Um segundo, então? Mais profundo? Temo, tremo e respiro fundo.

Não há dia seguinte. Ele não tem meu número ou endereço e não faz questão de tê-los. Ele coça a barba, enquanto vou em frente para finalmente abandonar o cômodo. Fecho o zíper e vou embora. Não apago a luz porque tudo já é escuro. Gostaria de abandonar esse mundo conhecido. Ir para uma outra cidade ou país e recomeçar. Quem sabe agora dê certo. Isso! Eu só preciso que a vida dê certo.

Sigo pelas calçadas digerindo mais uma noite sem sentido que protagonizo atrás de qualquer resquício de afetividade. Abro o aplicativo e apago a conversa: agora de fato nunca nos conhecemos. Começo a deslizar. Não me importo com a exclusão e nem ele se importará.


| foto: pixabay

Contudo, no fundo, sei que não vim atrás só do ato, gostaria de algo além, bem diferente dos instintos e impulsos físicos. Um sentimento capaz de liquidar de vez a constante e temida solidão. Que engano, foi só um match cuja regra implícita era a de não se apegar.

‘Parabéns, você tem um novo match’
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