Atropelos

| foto: pixabay

Assustei-me. Era como se tivesse atravessando a rua ou os trilhos de um trem com os olhos bem fechados. Distante de mim, ouvia um som agudo e insistente. Seria uma buzina tentando me alertar para não ser atropelado por algo inesperado? Andar com os olhos fechados por vias incertas parece ter sido a regra por muito tempo. ‘Não quero ver para não sentir’, era meu mantra. De repente, novamente me via no começo, bebendo daquelas sensações que outrora mudaram completamente a minha forma de ver o mundo.

Atravessei e sobrevivi, em resposta, sempre tentava comparar o que sentia agora com o que já senti. O medo do abandono, da traição e de não ser correspondido ressurge. Desse outro lado da rua, havia traços reconhecíveis. Meu desejo era o de compreender a complexidade do que sentia, não  necessariamente por medo, mas para o enfrentamento. Se algo desse errado, era só desmanchar e voltar para o caminho conhecido, certo? Antes, me via preso no ciclo entre o interesse real passageiro e inexistência da combustão, isto é: se não queimava no meu coração e alma, não vingava.

O que poderia vir agora? Estou pronto para seguir em frente, após relações que não deram certo? Parece tão óbvio que relações afetivas podem não dar certo, durar... por que então é difícil seguir em frente, e por que há o temor de começar a se entregar ao sentimento que emerge em mim? Tudo pulsa constantemente. Como um garoto, estava assustado e confuso.

Passo por vitrines e elas refletem o meu rosto. Meus olhos me encaram e estou paralisado. As minhas dúvidas borbulham em minha mente como constelações que estão ora visíveis, ora invisíveis. Cada vez que me atento a elas, descubro novas e me sinto ainda mais perdido. A indefinição toma conta de mim. Eu quero a segurança, a certeza de que não vou sofrer.

Tolice. Ingenuidade a minha achar que é possível haver segurança no processo de se entregar ao sentimento novo por alguém. Estava ali no meio de uma rua nova desejando uma apólice de seguro que não existia. Eu só preciso que criem um, porque sentir o que sinto é ariscado.

Tolo. Será que mesmo depois de tudo que vivi e senti nas relações passadas ainda não aprendi que amor e medo não podem coexistir? Enfim parece nascer uma certeza e é nela que devo crer. Preciso optar por um dos dois: ou amo ou tenho medo. Acho que já sei qual escolher.

Meus instintos me guiam, o da defesa quer o medo, o da esperança, amar. É domingo, um novo dia e semana. Continuo atravessando a rua, mas hoje acordei diferente. Abri os olhos e senti a esperança.


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