Ótica Cotidiana - A crônica singular do cotidiano, por Vinicius Gericó: Tempos de cinzas
O cotidiano é um texto e o texto, um conjunto de riscos
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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Tempos de cinzas



As cinzas se espalham com o vento que indicam um novo tempo. Do meu lado, a felicidade e a liberdade, antes represadas em ilusões constantes e esperanças. Do seu, o alívio pela dispensa em tentar manter uma relação que nunca quisera ou fora útil. Os dias tingidos de tons de cinza se converteram em pó e ele se espalha e se perde em um novo tempo oposto ao que passou.

No fim, tudo àquilo vivido fez bem. Foi um ciclo de muito aprendizado e há inúmeros motivos e momentos para ser grato, mesmo àqueles envolvidos em lágrimas. Como pode uma pessoa fazer a outra tão infeliz? Como pode a infelicidade se tornar rotina e não reagir? Às vezes é preciso que uma pessoa destrua a sua vida, para que você, sozinho, construa uma nova infinitamente melhor e mais segura. Somente quem chega ao fundo, consegue ter força para erguer algo maior e seguro, para então enxergar novamente o horizonte.

A felicidade? Ela agora é constante. Do meu lado, não há tentativa em ter uma relação. Não mais. Porque tudo acabou em cinzas. O fogo, a paixão, tudo pertenceu a um vulcão feroz que estralava gotas de fogo, que produziam feridas e graves queimaduras. A fumaça era tóxica, os olhos estavam sempre vermelhos. À medida que se tentava reconstruir e manter vivo o elo, o vulcão se expandia e expelia mais gotas de fogo.

Num dado momento, o vento venceu o fogo, que não lutou e abrandou. Foi enfim dado lugar às cinzas. Nada restou, nem ódio, nem amor. Uma autofagia de lembranças e sentimentos, que resultou em um pó que agora se espalha e nada produz. Amnésia. O que teria acontecido naqueles tempos? Não há registro, desapareceu. A única certeza é de que o vulcão era intenso e ativo. Houve doação e dor. Mas hoje o vulcão sequer consegue ser reconhecível, diante de tudo que se formou por cima e nos arredores. O fogo tem esse poder de apagar tudo e não deixar rastros.

Do seu lado, realmente deve existir o alívio. Não há mais porque simular ou tentar manter algo que nunca se quis. Passou. A liberdade faz bem. Olho para atrás e não consigo ver qualquer parte conhecida. Um estranho habitou em mim. Quem ele era? Como chegou e se instalou? Como se usurpou de minha vida? Dúvidas. Assim como chegou, foi embora e levou as vivências deste tempo. Nesse universos de infinitas possibilidade até mesmo em estado terminal a vida é capaz de recomeçar.

Do meu lado, lhe desejo o melhor. Que seja tão feliz como eu tenho sido. Que um dia consiga alcançar a infinidade e sentir o amor que senti por você. Amar é uma das experiências mais intensas e arriscadas que existem. Vale a pena dar vida a vulcões, se entregar, doar. Os que recebem um amor intenso deveriam ser gratos, porque dificilmente essa experiência retorna. E é infinitamente bom receber amor.

No fim, saímos aliviados. Existem relações que nascem para se converterem em cinzas. A nossa foi assim e valeu a pena. Elas agora se espalham por um novo tempo. Tempo bom. Tempo infinito. Quem é você? Quem eu fui? Tudo que era conhecido se apagou. Não há o que continuar, temer ou sentir culpa. Estamos aliviados, no fim, não nos lembramos mais o que éramos, o que fomos e o que poderíamos ser. Não precisou ser para ter. As cinzas se espalham e elas se movem para algo bom. Aqui as cinzas não representam a tristeza, mas sim a liberdade.

 


Vinicius Gericó
ola@viniciusgerico.com

Jornalista, Relações Públicas, blogueiro, vegetariano, otimista, cinéfilo e ciclista nas horas vagas; viciado em informação e literatura existencial. Faz piadas com frequência e acha a vida um tanto banal demais para manter viva as experiências ruins.



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