Ótica Cotidiana - A crônica singular do cotidiano, por Vinicius Gericó: No fluxo, há beleza no que não aconteceu
O cotidiano é um texto e o texto, um conjunto de riscos

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

No fluxo, há beleza no que não aconteceu




A vida segue um próprio fluxo, independente, de forma precisa e equilibrada. Enquanto as nuvens disputam por espaço com sol no céu, pessoas de todos os tipos caminham em resposta a alguma motivação da vida. O que te levou a sair de casa hoje? As ruas da vida têm cheiros efêmeros. À cada novo passante, um novo cheiro. Cada qual com sua marca.

Há algumas folhas sambando no chão e uns panfletos de promoção. A menina meche nos cabelos longos e no celular. Sorri algumas vezes e o seu riso é de felicidade e leveza. Talvez esteja recebendo uma mensagem de alguém que goste dela. Talvez esteja sendo correspondida no amor.

O menino ao lado, não compartilha de tal sentimento. Ele veste o uniforme da escola e olha para a frente e para atrás o tempo inteiro, provavelmente teme o atraso. Pode ser que esteja em uma semana de testes. Ajeita os óculos de grau e olha as horas pelo celular seguidas vezes.

Uma mulher, com mais de 70 anos, passa andando com outra que imagino ser sua filha. As duas conversam sobre o que irão fazer durante tarde e no almoço de logo mais, agora que já perderam a manhã em uma consulta que foi desmarcada em cima da hora. Elas avistam um ônibus e pedem para que pare imediatamente. O motorista faz sinal de que o veículo está cheio, mas elas insistem e entram. É. O tempo corre e elas não podem perder mais minutos deste dia. Ou será que elas podem? Talvez a beleza esteja no que não aconteceu. O que teria acontecido se elas tivessem esperado por mais dois minutos?

Os carros passam individualmente e ocupam cada faixa da pista. Os motoristas seguem o fluxo concentrados e sozinhos. Os mais histéricos, buzinam por qualquer sinal de lentidão. Vez ou outra passa alguém sentado no lugar do carona. Quem passa ouvindo música parece mais relaxado e feliz. Cantam no mesmo tom da sinfonia da beleza do dia e até param nas faixas de pedestre. Sorriem a cada "obrigado" lançado por quem atravessa.

Um ciclista passa em seu ritmo por todos os carros ouvindo música e sem temer acidentes. Dá para ouvir ruídos do que escuta. Ele segue atento a tudo e impõe seu espaço. Um grupo comenta a atitude do rapaz: “oxe, ele é louco”, “ele tá é certo em ser livre”, retruca um outro, que usa um boné para escapar do sol forte que saiu. Ele veste um macacão de uma empresa e está pronto para voltar ao trabalho.


A vida segue, sem previsão e com precisão. O sol venceu as nuvens até então. E as nuvens se dissolvem pelo azul do céu, como soldados se retiram do campo de batalha. No fim as nuvens se perdem, se distanciam e nunca mais as veremos da mesma forma, assim como os segundos que acabam de passar.

As pessoas continuam se movendo, a cada instante a rua ganha um novo cheiro do novo transeunte. E nesse mundo, todos são como nuvens que chegam, se movem e vão embora. A vida segue, mesmo quando o que os humanos preveem não surge.

O que talvez não entendam é que a beleza está, muitas vezes, no que ainda não aconteceu e no que não é possível prever. Abrir os olhos todas as manhãs é sempre uma experiência de conviver com incertezas. E se àquelas mulheres estivessem esperado dois minutinhos? Você já se perguntou o que aconteceria se seguisse por outros caminhos? 

 
  


Vinicius Gericó
ola@viniciusgerico.com

Jornalista, Relações Públicas, blogueiro, vegetariano, otimista, cinéfilo e ciclista nas horas vagas; viciado em informação e literatura existencial. Faz piadas com frequência e acha a vida um tanto banal demais para manter viva as experiências ruins.



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