Uma versão para chamar de sua



Ela se viu diante do abismo de incertezas que a atropelava incansavelmente durante todos esses últimos anos. Sentiu necessidade de procurar-se e mais ainda: de encontrar-se. Procurou nas gavetas de seus armários algo que remetesse a alguma versão sua abandonada, diante do que foi perdido nos verões passados. Tudo que encontrara já não lhe servia mais. Mas o quê ela poderia ser hoje? 

Ladrão. Constatou diante da realidade de que se envolveu com alguém que levou parte sua para si, e por mais que ela reconheça que pode trazê-la de volta, o fato de ter sido apropriado por outra pessoa, faz as suas próprias características algo que já não lhe pertence. Algo estranho e se sentia como um bicho estranho, amorfo e inerte. Já não adiantava os seus esforços. Menos ainda reconstruir-se por qualquer circunstância banal.

Mesmo tendo em mente que jamais fugiria, optou por essa saída. Fez as malas e levou o essencial. Àquilo que a mantém viva, mas que logo mais seria descartado, porque essa vida atual é transitória e só lhe faz sentido agora.

Saiu de casa, fugiu de si mesma. Agora ela já não tem desculpas para não encontrar-se. No entanto, a sua estrada é longa e tudo que ela sabe - ou deseja - é que consiga reconstruir-se e a ressuscitar todas as relações e sentimentos perdidos. Quanto tempo demorará em refazer-se ou passar-se a limpo? Ela desejava apenas uma versão para chamar de sua. 



  

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