Ótica Cotidiana - A crônica singular do cotidiano, por Vinicius Gericó: Casualidades
O cotidiano é um texto e o texto, um conjunto de riscos
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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Casualidades








Capítulo 10

Março de 2014
    – Oi, tudo bem?
– Oi, tudo bem?

    Durou menos de um segundo. Curioso é que passamos um pelo outro e não soubemos a resposta. Melhor que eu explique, esse foi o diálogo de reencontro com Adam no corredor do escritório que começamos a trabalhar agora em janeiro. Adam não me deu tanta atenção e parecia seguro e bem. Fiquei feliz por ele, porque finalmente pode ter se livrado do que sentia por mim. Eu não sabia que o encontraria aqui e nem que seríamos colegas de trabalho outra vez.

Parece que a vida quer nos dar mais uma oportunidade, então que seja pelo menos para sermos amigos. Só tenho minhas dúvidas se ele irá querer isso, já que suas cartas demonstravam frustração e dor ao se relacionar comigo. De certa forma, quando Adam partiu foi um alívio para mim. Ele não me faz falta e nunca foi importante. Perto me trazia desconforto e longe me traz alívio.
Estamos sentados lado a lado. Adam assiste TV e meche no seu celular para me evitar. Eu desejo quebrar um pouco o gelo.
– Você quer café?
– Não, obrigado – me responde sem olhar para mim.
O que posso fazer agora? Pensativa, saio do seu lado e vou em direção ao café. Aproveito para responder as mensagens que o meu namorado me deixou. Bom fazer isso aqui, para não chegar ao Adam sem querer. Não sei em que pé está o que ele sente por mim. Retorno à recepção e Adam continua da mesma forma que eu o deixei. Ele sorri e por um momento, quando acho que é para mim, noto que o riso é sobre qualquer coisa que está passando na televisão.
A sua expressão parece mais leve. Consigo ver beleza e serenidade nele. Será que finalmente Adam encontrou alguém? Meu rosto cora de felicidade. Aproximo-me dele novamente e lhe pergunto sobre as férias e o que tem feito. Antes de me responder, Adam me encara por alguns segundos. Seus olhos parecem me perguntar se estou certa do que estou fazendo. Temo por alguns instantes o que acabei de fazer, mas ele, para minha surpresa, me responde com tranquilidade:
– Minhas férias foram ótimas. Pena que agora tenho que voltar a trabalhar. Fiz tantas coisas legais que não fazia há muito tempo.
Enquanto Adam me responde, percebo a beleza de seus olhos e do seu riso. Ele parece mais leve, sereno. Fico feliz que esteja bem e seguro. Mas ele não se alonga nas respostas e não tenta conversar comigo. Apenas responde as minhas perguntas com poucas palavras, sem entrar em detalhes, e olha que Adam é bem prolixo. Fala muito e dá detalhes surpreendentes sobre qualquer coisa. Observador nato, na época em que saíamos ele sempre trazia algo de alguma experiência que vivemos juntos que eu não vi. Mas agora ele não entra em detalhes, é evasivo e segue em silêncio a maior parte do tempo.
– Tchau – diz Adam.
– Tudo bem. Inclino-me para receber um abraço e abro os braços, mas percebo que ele não o quer, então retorno para cadeira e espero dar o meu horário. Despedimo-nos a distância e ele me deseja sorte na nova vida que virá. Retribuo com um ‘para você também’. E novamente não nos vemos mais.
*Este texto é parte da segunda leva de capítulos do seriado Adam e Emma: uma história de (des)encontros. Na próxima segunda-feira, o penúltimo capítulo.

 

Acompanhe a história:
Capítulo 1: Emma Thompus
Capítulo 7: O luto severo
Capítulo 8: Stalker
Capítulo 9: Despedidas
Capítulo 10: Casualidades


  


Vinicius Gericó
ola@viniciusgerico.com

Jornalista, Relações Públicas, blogueiro, vegetariano, otimista, cinéfilo e ciclista nas horas vagas; viciado em informação e literatura existencial. Faz piadas com frequência e acha a vida um tanto banal demais para manter viva as experiências ruins.



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