Ótica Cotidiana - A crônica singular do cotidiano, por Vinicius Gericó: Cada segundo é inesperado
O cotidiano é um texto e o texto, um conjunto de riscos

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Cada segundo é inesperado








Capítulo 11
Maio de 2014

Encontro Emma de pé, parada no corredor da empresa. Parece uma peça da vida trabalharmos juntos novamente. Emma veste um vestido branco e calça uma sandália meio hippie. Seus cabelos estão curtos e percebo mais pulseiras em seu pulso. Olhar para ela me faz pensar em como teria sido a minha vida se estivéssemos juntos. Sinto o seu cheiro de suor seco, embora agora estejamos no lugar frio. Emma é do tipo que faz longas caminhadas e por isso volta e meia chega suada aos lugares. Seus cabelos são lisos e sempre modelados pelo vento. Essa é a primeira vez em muito tempo que paro e observo-a. Meu plano é de ignorá-la para sempre.
Ela se aproxima de mim e me cumprimenta sem contato. Agradeço mentalmente, porque sei que desde que a abracei no dia em que ela me entregou o anuário, manter-me longe dela é a melhor opção. Por mais que o tempo tenha passado, não consigo deixar de lembrar em como Emma pisou em mim e nos meus sentimentos. De todas às vezes que beijou outros caras em minha frente, mesmo eu tendo pedido para que ela não fizesse e mesmo ela tendo prometido que não faria. Ela falhou, acabou comigo inúmeras vezes e não posso fazer de conta que está tudo bem. Não sinto raiva, mas devo me proteger de que ela não irá me atingir por causa da sua ausência de preocupação com o que sinto.
Emma reclama do frio e, em um momento de pura gentileza, pergunto-lhe se ela quer o meu casaco. Ela, como sempre, resiste. Diz que “não precisa”. Mas não demora muito a minha impaciência tomar conta da situação e acabo tirando o casaco da mochila e entregando-a.
– Toma. Agora pare de tremer perto de mim. – Digo-lhe.
Emma sorri e seus olhos ficam bem abertos. Ela veste o casaco em poucos milésimos de segundos. O capuz bagunça parte do seu cabelo. O coloco no lugar. Estranhamente nos olhamos nos olhos como há muito tempo não nos olhávamos. Talvez como nunca.
– É... eu já te agradeci? – pergunta. Eu balanço a cabeça para dizer que não. E então ela conclui e me diz “Obrigada”. Eu não respondo nada e digo que precisamos voltar para os nossos locais de trabalho. No final do dia, saio às pressas, para evitar qualquer aproximação e ela também. O meu casaco fica em suas mãos por todo o final de semana e eu pego um baita temporal na volta para casa. Fui trouxa mais uma vez e sei disso.
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Estou assustada, me sentindo estranha, sei lá. De verdade, estou. Eu nunca vi qualquer coisa no Adam que me atraísse. Nunca o achei bonito ou interessante, mas quando ele arrumou os meus cabelos, no momento em que me emprestou o seu casaco, senti algo estranho por ele.
Nossos olhos se cruzaram e vi ternura em seu gesto. É como se eu tivesse vendo ele agora com toda a sua beleza e singularidade. Saio às pressas da empresa e levo o seu casaco, porque quero manter algo dele perto de mim.
A peça fica na minha escrivaninha durante todo o final de semana. Começo a me lembrar de todas as coisas que vivemos e do tempo em que passamos juntos. Estou confusa. Não posso me dar ao luxo de sentir dúvida por ele, afinal, estou namorando sério. Acho que foi só uma coisa de momento. Deixei meu lado emocional fluir ao sequestrar algo dele. Que bobagem. Na segunda-feira já terá passado.
Divido o final de semana com obrigações e encontros com o meu namorado. Estamos juntos oficialmente há uns quatro meses. Acho que estamos bem assim.
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Mais uma semana começa e não estou tão disposto a ela, mas Emma aparece na minha frente com o meu casaco e pede para que eu o retire da sua bolsa. Observo o seu semblante, que está mais corado. Deve ter tido um ótimo final de semana com o seu namorado, imagino e abaixo a cabeça.
Acho estranha a sua atitude de me pedir para pegar, mas sigo a sua orientação. Ela me agradece, mas eu não respondo nada de volta. Fico desanimado durante o dia. Seguimos para os nossos setores e não nos vemos por um longo tempo. Cerca de duas semanas, que parecem uma eternidade, para mim que sempre sofreu com a largura e densidade do tempo.
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Pela primeira vez nesses mais de dois anos que conheço Adam, sinto vontade de chamá-lo para sair. E mais: sinto coragem para fazer isso. Pergunto para ele se ele não deseja me acompanhar em um tour de comida vegetariana e pedalar pelas ruas do centro da cidade. Nós sempre gostamos de bicicletas e de caminhar juntos pela parte histórica. Adam, em um primeiro momento, parece resistir, mas logo depois aceita. Quero levá-lo também para vermos umas exposições fotográficas e uma peça de teatro, mas ele ainda não sabe.
Adam chega pontualmente às 10h. Estou sentada na praça ouvindo música e olhando para cima. É um dia de outono, não faz calor e nem frio. Adam veste uma bermuda colorida e uma camiseta branca. Ao me ver, ele fica ao meu lado, mas não me abraça. Eu não resisto e lhe dou um abraço apertado. Adam demora um tempo para reagir ao meu abraço, mas pouco tempo depois, trocamos um longo e intenso. Ele me beija na bochecha e eu retribuo. Há quanto tempo nós não nos abraçávamos mesmo?
Pegamos as nossas bicicletas e começamos a pedalar em meio às folhas das árvores que caem nas calçadas das ruas movimentadas. Adam está falastrão como nos velhos tempos e eu começo a sentir prazer em ouvir as palavras que saem dele. Pedalamos, paramos, conversamos, comemos. Rimos sobre coisas que dividimos sobre as nossas vidas.
Sentamos em um gramado de frente para uma casa antiga, próximo ao mesmo local do Centro que nós nos conhecemos. Eu, em um movimento espontâneo, me aproximo mais dele. Nós nos olhamos e desviamos o olhar algumas vezes. Adam olha para baixo, com medo do que estou despertando nele, tenho certeza, porque eu também tenho medo. Eu o encaro com olhar fixo. Seguro as suas mãos, que estão suadas e no desmanche do encontro delas, o abraço levemente. Sinto o seu perfume forte em mim, grudando em minha roupa e na minha pele. Adam parece apavorado com a aproximação. Desfazemos o abraço e continuamos a nos olhar. Aproximamo-nos novamente e nos beijamos. Um beijo longo, intenso e espontâneo.
Adam me observa com medo e percebo nele a vontade de ir embora. No seu impulso de se levantar, o seguro e digo:
– Fique, por favor.
E então nos beijamos outra vez. É estranho para mim, parece que agora sinto que conheço Adam, mas não conheço o que sinto por ele. É tudo muito novo e tudo que eu quero é que não termine.
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Eu estou ficando louco. Só posso. Desde que Emma me beijou, sinto um turbilhão de coisas novas em mim. Meu Deus, eu estou finalmente me relacionando com a mulher que mais amei na minha vida? Realmente não sei o que fazer. Tenho medo de que ela vire para mim e diga que era só uma coisa de momento, ou um acidente. Ela beijou alguns rapazes e me disse que foi por acidente, coisa de momento. Tenho medo de ter sido mais um.
Nos dias seguintes ao beijo, nos encontramos no trabalho. Emma vem em direção à minha mesa e me pergunta como estou. Ela me abraça e toda a pressão do trabalho parece esvair. No meio do expediente, combinamos de tomar café. Conversamos e marcamos de sairmos do trabalho juntos para dar uma volta na orla. Eu aceito, mas temendo o que estou sentindo. E se ela me deixar? E se ela tiver outro? Não sei se posso viver essa separação.

*Este texto é parte da segunda leva de capítulos do seriado Adam e Emma: uma história de (des)encontros. Na próxima segunda-feira, o último capítulo.

 

Acompanhe a história:
Capítulo 1: Emma Thompus
Capítulo 7: O luto severo
Capítulo 8: Stalker
Capítulo 9: Despedidas
Capítulo 10: Casualidades
Capítulo 11: Cada segundo é inesperado


  


Vinicius Gericó
ola@viniciusgerico.com

Jornalista, Relações Públicas, blogueiro, vegetariano, otimista, cinéfilo e ciclista nas horas vagas; viciado em informação e literatura existencial. Faz piadas com frequência e acha a vida um tanto banal demais para manter viva as experiências ruins.



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