Sobre as ligações e mensagens ignoradas

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Imagine que o seu telefone acaba de tocar. O número é desconhecido, mas, como você nada teme, atende. Após essa ligação você se torna uma pessoa diferente. Sente-se como nunca antes. Uma mistura de sensações novas e poucas palavras. É assim quando você se apaixona e, em um segundo momento, ama.

Não existe controle para se apaixonar ou amar alguém, apenas acontece. Ainda que a defesa exista, na busca e inclusão de elementos para afastar o amor ou a paixão de perto, ainda assim, é um processo autônomo. Não significa passividade e descaso com o amor próprio, porém está bem distante da noção de independência e autossuficiência que nos são cobradas. A ligação recebida e com duração de poucos minutos ou segundos pode despertar algo capaz de acompanhar uma vida inteira. Você tem escolha, poderia não ter atendido?

De qualquer forma, o sentimento nasce com ou sem o seu consentimento e quanto mais rápido chega, mais julgamentos é capaz de provocar. Já notou como as pessoas se envergonham de dizer que se apaixonaram “à primeira vista”? Parece, para alguns, que é conversa de pessoas mal resolvidas ou que elas são carentes de atenção e abrem as portas para qualquer um. Insensatez, diria. Da mesma forma, não é estranho quando o “à primeira vista” não vem acompanhado de trilha sonora e cadeado na ponte e logo passa a ser visto como algo menor e descartável.

Nossa sociedade criou modelos para tudo e quando se trata de amor e paixão, não poderia ser diferente. O peso da culpa pode nascer aí. Afinal, assumindo ser o estranho, mal resolvido, que se apaixonou por alguém no primeiro contato, carrega-se um estigma. Perguntam: “como é possível no primeiro dia?”, “Por que se entregar tão rápido?”. Mas é extremamente possível. Fico imaginando como seria se amássemos sem culpas ou medos de sermos felizes. Porque a nossa sociedade, em seus modelos, julga até quando estamos próximos da felicidade.

Visualizou a mensagem e não respondeu

Na nossa concepção de amor e relações, a pior parte, no entanto, não é o amor à primeira vista, mas a de não ser correspondido. Quanto tempo lhe é dado para esquecer um grande amor? Há quem dê três meses, um mês, um ano. Mas este tempo de cura é tão singular que não cumpri-lo no prazo estabelecido pelas pressões sociais trará novas culpas e medos. “Será que ficarei com isso para sempre?” ou, por outro lado, motiva: “Este é o amor que quero ao menos dar uma chance e eu irei lutar por ele”. O que às vezes se perde de vista é que o investimento pode vir acompanhado da dor.

De repente, você é extremamente carinhoso com alguém, atencioso, faz de tudo por ele, porém, a outra pessoa não consegue ver nada disso ou simplesmente não se importa. A irritação é inevitável e uma simples resposta não dada – nessa cultura do imediatismo e sempre online – é sinônimo de rejeição. O que você faz diante das próprias constatações e provas do não-amor? Chora todos os dias? Esquece e segue em frente? Diria que um pouco dos dois ou nada disso, porque cada pessoa acaba desenvolvendo a própria cura das frustrações do que criou. Às vezes uma paixão ou amor pode ser só uma criação alimentada pelas histórias de ficção que nos contam. Espera-se tanto por algo perfeito, que quando ele não vem de imediato, a frustração surge com força e destrói qualquer iniciativa espontânea ou grandes chances.

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Não ser correspondido no amor doí, sobretudo quando se espera que a outra pessoa ao menos consiga ver beleza em você, que faça se sentir especial ou querido por ela. É uma defesa sórdida, porque não importa o que seja ou faça, se não há amor do outro lado, não há relação. Quando a outra pessoa é comprometida ou se envolve com outras diante dos seus olhos, bingo: mais sofrimento em vista. Não há como lutar contra o que a outra pessoa não sente. Nada que é para ser de dois se sustenta com um só. A culpa e a frustração são companheiras inseparáveis, porque na nossa sociedade competitiva vence quem ganha. Por isso não é raro as pessoas passarem por cima das outras ou de relacionamentos em prol do que se deseja. É justo? Você pode se perguntar quando sente e se doa para alguém.

"você tem x chamadas não atendidas"

O tempo de superação de um amor ou paixão é uma das etapas mais delicadas. A sociedade ou mesmo os seus amigos próximos – com quem você desabafou, porque já não aguentava mais sentir àquela combustão de sentimentos por alguém – diz sempre que se deve seguir em frente custe o que custar. O tempo é mais ou menos estabelecido. Um dos maiores fantasmas de quem ama e não é correspondido é a cobrança pela volta por cima. Escuta-se: “mas já se passaram seis meses e você ainda o ama?”, “ele não está nem aí para você”, a culpa e a frustração voltam com mais força, porque, novamente, na nossa sociedade das conquistas se é considerado perdedor quem não consegue superar o que sente. Os rótulos são variados também: “sem autoestima”, “fraco/a”, “tolo/a”, “louco/a”, entre outros.

A complexidade de sentir, deixar passar e seguir – ou experimentar – se revela em muitas faces e etapas. “Mas já se passaram quase dois anos, muitas chamadas foram perdidas!”, você pode escutar. Mas o que se pode fazer? Está dentro de você e por mais que se viva e se relacione, continuará ali.

A nossa noção de tempo e de volatilidade trouxe muitos males para as relações. Ela exige que o outro esteja sempre pronto e com novidades o tempo inteiro. O novo se torna velho rápido, e a monotonia do relacionamento se torna presente em, às vezes, pouquíssimo tempo. Da mesma forma com quem não é correspondido. Se exige que se apaixone novamente e que seja rápido, que se liberte de uma vez do que traz tristeza. No entanto, não se trata de uma escolha. O telefone tocou, a mensagem ficou, fim. Até que a mensagem desapareça pode levar todo o tempo do mundo e não é saudável dar precisão no tempo de superação de alguém e nem de nós mesmos. Se quem sente percebe algo anormal, vale procurar ajuda.

"Você tem x novas mensagens"

O que não se pode perder de vista é que o amor é um processo de dentro para fora. Se você não é correspondido e se frustra por não conseguir superar no tempo estimado, ou mesmo quando a pessoa é muito má para você – ou as duas coisas – o processo se torna de fora para dentro.

De repente, você começa a observar e absorver muita culpa, frustração e mágoa de fora – vindos dessa tal incapacidade em não superar no tempo certo – e se pega solitário com o sentimento que não depende exclusivamente de você para partir. Tudo pode levar o dobro do tempo e ser ainda mais doloroso. A cobrança por autossuficiência contínua é outro elemento que impede e pode trazer mais medo e frustrações.

Fico pensando em qual é o sentido do amor e de superar. Amar é uma experiência extremamente densa disfarçada de leveza, porque tudo que nos contam parece sempre mais simples. Considero o amor como ato de compartilhar. Se mesmo diante de tantos problemas existem os sentimentos de lealdade, fidelidade, respeito, carinho, sinceridade, admiração e desejo pela companhia, sendo compartilhado por ambos, existe amor. Vale manter ou dar uma chance ou duas. A imperfeição (diferenças) também é amor.

O amor dado e recebido nos torna infinitos e melhores. Não existe fórmula secreta para viver um, menos ainda para superar. O que não se pode perder de vista também é que você é o centro de tudo. Você pode se entregar completamente ao que sente ou simular ignorar, mas para qualquer uma das escolhas virão consequências que exigirão ações e sentimentos a serem levados por toda uma vida. Não é qualquer ligação que fará você se sentir como nunca se sentiu, por isso, mesmo diante de todos os problemas e sentimentos envolvidos, dar atenção ao que é singular pode ser um dos caminhos para felicidade e confiança em experimentar o que sente.

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