A infinidade que lhe falta





Ela o via e sentia todos os dias, como o próprio reflexo do espelho. Assim como ela evitava se olhar, pois sentia dor em encarar os olhos vermelhos, ele a evitava. Ela não aceitava a situação de amar alguém que não a quer por perto. Inocentemente, queixava-se. Conversavam inúmeras vezes e ela se abria com a esperança de que tudo ficaria bem. O que ela demorou em entender, no entanto, é que ele não mudaria jamais, porque tudo que ele estava querendo dizer ao oprimi-la e rejeitá-la paulatinamente é que ele não a quer por perto mesmo, não importa o que ela sinta, diga, seja ou faça.

Ela evitava o espelho, porque sabia que pelos seus olhos a sua alma e coração lhe pediriam socorro mais uma vez. Já estava saturada de não conseguir se salvar. De quanto tempo mais precisaria e quanto tempo sentia que ainda suportaria viver? No dia a dia, ele passa por ela e simula abraços e satisfação. Ela, esperançosa, imagina que enfim tudo mudará. O que ela não percebe é que por mais que faça e seja tudo de melhor para ele, ele nunca será capaz de valorizá-la. Nem os seus presentes, demonstrações de carinho e afagos, nada disso importa.

Encontro ela mais uma vez deitada em sua cama abraçada ao travesseiro, rendida à sorte de conseguir dormir, esperando o tempo e dor passarem e uma única mensagem de atenção vinda dele. Seus olhos continuam vermelhos e ela permanece sentindo o peso da opressão e culpa por amar quem não a quer por perto. Aproximo-me e lhe alerto:

– Você não pode continuar confundindo esse sentimento de esperança. O que você imagina ser esperança é justamente o oposto: é algo que está destruindo a sua capacidade de sentir-se esperançosa com alguém, em sentir-se amada e valorizada. Pare de confundir intuição com ilusão. Os seus olhos vermelhos precisam ser capazes de se ver no espelho e atentar-se ao verdadeiro amor. Àquele que não se cobra ou se negocia. É àquilo que chamam de espontaneidade e infinidade. Há quanto tempo não se sente infinita? – pergunto.

Ela me observa com atenção. Ela já conhece as minhas palavras, mas não consegue materializá-las em suas ações. Assim como ele, que diz gostar dela, mas faz de tudo para que ela perceba que ele não está se importando com qualquer coisa que sente. A frieza, descaso e cinismo dele enfurecem-na e entristecem-na seguidas vezes, enquanto reconhece o peso da minha pergunta. Lágrimas preenchem o seu rosto, numa mistura de gratidão pela atenção que lhe dou e por sua vontade de mudança.

Àquela pergunta permanece no seu consciente e inconsciente: – Há quanto tempo não se sente infinita? É justamente disso que ela precisa para livrar-se do amor por quem não lhe corresponde e quer por perto. Porém essa pergunta é confrontada por seu emocional que repete infinitas vezes: – Há quanto tempo espero que o tempo cure tudo? Eu só quero a paz outra vez.

De fora, consigo prever o futuro dos dois. Ela irá se recompor. Seguirá em frente e será mais feliz do que um dia imaginou ser, com alguém que é capaz de ver a beleza dela naturalmente. Alguém capaz de lhe dar o valor que merece. De um bilhete qualquer, que é entregue em momentos de tédio, ao amor capaz de superar, aceitar e aprender com o prazer de se relacionar com a diferença do outro. O valor existe, tanto dela, quanto desse alguém.
Ele, no entanto, acabará preso com a sensação de arrependimento, porque esteve diante de uma das mulheres mais incríveis e lindas do mundo. Ela estava munida de um sentimento que ele nunca sentirá por qualquer pessoa em vida, e ele só a machucou e a manteve oprimida, presa à autodestruição. Um dia reconhecerá que não foi grato a todo carinho e atenção que recebeu e que perdeu a grande chance de se tornar uma pessoa melhor, pelas vias do amor puro. Inclusive não irá demorar, até que os outros percebam quem ele é de verdade e o que é capaz de fazer, em nome de si. O tempo irá passar. Para ela, o alívio e liberdade; para ele, o arrependimento e a culpa. A infinidade que hoje ela sente falta é o meio para se libertar do que sente. 

 






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