Poças d’água





O Ele-ela se observa no espelho e se entrega minutos à sensação de devoção a alguma coisa que pouco entende, mas acredita fazer bem.
– O que tanto admira, Ele-ela? – pergunto. Ele-ela não responde. Opta pelo silêncio. Seria uma defesa? Posso ler sua mente. Ele-ela acredita que é um ser completo e preenchido de sabedoria e de inteligência. Posso sentir as informações se cruzando e a expertise de uma vida. Enquanto devoro o seu comportamento, palavras despencam do meu pensamento e saem da minha boca, e sem me dar conta, elas se expandem no ar.
 – Ingenuidade. Como se rende a uma ilusão barata, Ele-ela. Aliás, a ilusão é uma constante criação dos seus semelhantes, por isso mesmo precisam jogar com ela para sobreviver. Vocês criam tantas dispersões para sentir o falso preenchimento. Já imaginou como seriam se fossem realmente preenchidos?
– Eu sou pura experiência. – argumenta Ele-ela, enquanto limpa a boca com um lenço e retoca a maquiagem.
– Se outras pessoas acreditassem que o que acreditam ser experiências significa preenchimento e conhecimento – que é por elas, as experiências, que encontram o caminho para ser sábio – seria possível se sentir mais confortável? É crível acreditar que superaram as próprias limitações? Paro por alguns instantes e sigo: – O que você chama de experiência, Ele-ela? – pergunto.
– Tudo. Eu sou as viagens, o meu trabalho, e as trocas entre as pessoas que conheci, amei e deixei de amar. Eu sou a experiência – me responde.
– Você é pura ingenuidade, Ele-ela. Isso tudo que você está dizendo mantém você no nível raso. Você tem ideia do quão consegue se manter refém do raso? Você é o raso, não importa quantos excessos se render. Digo mais: vocês são tão estúpidos com essa coisa de experiências. Vocês mesmo criaram um conceito distante do que é a realidade, por isso não transcendem. Nascem, crescem e se reproduzem e não conseguem ver nada além disso. Nada além do seu lugar de humano. Acham que ter mil viagens, ter dormido e namorado com várias pessoas, ter inúmeros amigos na vida real e virtual, ter muitos bens, um emprego que pague mais do que o necessário e uma conta recheada é experiência.
Ele-ela me observa com desprezo e pronto para me atingir com argumentos.
– Mas... – interrompo:
– Me poupe dos ‘mas...’. Vocês são rasos, porque não conseguem sair do que são. O dia em que vocês conseguirem sair de todas as suas questões que criaram para distrair-se da experiência real, você terá noção do que estou falando. Não adianta devorar todas as bibliotecas do mundo, conhecer e dormir com pessoas de ambos os sexos e rodar o mundo. A sua experiência real virá de qualquer coisa menos de excessos. A experiência por si só é àquilo que você só se dará conta quando deixar a sua condição humana e confortável. Se você quer vencer as próprias limitações e se sentir preenchido, está no caminho errado.
            – Então o que é experiência e o sentimento de preenchido? – me questiona aborrecido.
            – É algo tão largo e tão transcendente para essa visão que tem, que para alcançar você precisa deixar de lado tudo que lhe é cômodo ver na condição de humano. Se me perguntar se das coisas que você faz e vive é experiência, eu posso te dizer que sim. É a experiência em viver um modelo de experiência criada por humanos, mas a experiência metafisica, para além de sua compreensão atual é muito mais do que qualquer coisa que um humano que segue os princípios do excesso e do cansaço pode conhecer. Os sentimentos devoram o tempo e o tempo se devora pela expansão. Tudo continuará raso se a expansão e solidez forem creditadas como excessos.  O excesso pode ser uma mera poça de água em que não reflete nada além da sua aparência humana e superficial. É tudo tão frágil, que com o tempo, evapora. 







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