Ninguém (íntegra)

| foto: pixabay
I

A lataria do carro revira pelo asfalto e meu corpo é um mero pedaço de carne que gira inconscientemente. Vejo imagens turvas em minha mente, num lapso temporal diferente de tudo que já vivi. São fragmentos dos objetos do carro, agora espalhados diante dos meus olhos, ou são lembranças felizes de um dia que já não lembrava? Os segundos, que pareceram estranhos minutos, me impulsionaram a perceber a presença do vazio que me acompanha durante toda uma vida, até mesmo em um momento como esse em que pareço estar deixando ela.

No asfalto, a lataria finalmente cessa a tal coreografia que me deixou girando. Vejo a fumaça, os estilhaços e sou puro sangue. Não consigo distinguir se estou no meu corpo ou se estou fora dele. Tudo parece turvo e eu não sei como agir. Estou de cabeça para baixo, minhas pernas presas nas ferragens que havia me custado milhares de dólares. Sou homem ou máquina? Gostaria de ser uma máquina ou homem? Em meio ao desespero, procuro insanamente o meu telefone. Eu não sabia se havia risco de incêndio ou explosão, mas a possibilidade de estar diante dos meus últimos segundos de vida trouxe o meu desejo final: o de ouvir você.

Frustrei-me. A tentativa de me mover é inútil, sobretudo quando o airbag está acionado. Aguardo com paciência que alguém chame ajuda. Mas alguém chamaria? Há um lado sádico nas pessoas que assistem os desastres, elas ficam sempre esperando o último momento decisivo antes de tomar uma atitude ou chegar a uma conclusão. Sempre esperando, sempre esperando. Enquanto isso, tento acalmar o desejo de ouvir você outra vez. Quando foi mesmo a última vez que te abracei? Espera um instante, nós terminamos. Havia algum tempo que não nos falávamos. Prometi não te procurar. Deixei à busca a seu cargo, porque esperava que fosse fazer isso. Pelo visto foi um ledo engano. Só eu sentia saudades nessa relação? Parece que sim, no fundo sentia um pouco de raiva e ciúmes por minha saudade e amor não serem correspondidos. Mas agora, diante da morte, não me importo com o orgulho em quebrar uma promessa. Poderia ser os meus últimos segundos de vida, quem se importaria com um juramento tolo que fizemos?

Sou sangue, suor e ferragens. Percebo sirenes ampliando gradativamente o seu som. Ouço conversas, mas não consigo decodificar nenhuma palavra, vejo tudo ainda girando e os meus olhos fecham sem eu perceber que estou perdendo a consciência e talvez deixando o meu corpo. Os sons se abafam, as luzes se apagam, minha respiração diminui. De repente, não penso em nada, não vejo nada e não sinto nada. Meu corpo vai se tornando cada vez mais pesado e o meu controle evapora.

II

Abro os olhos e vejo luzes fortes e paredes assépticas. Noto que estou usando uma roupa que não é minha. Não vejo marca de ferimentos algum no meu corpo. Esforço-me em decodificar o ambiente e vejo o meu braço e pernas estirados. Estão inteiros e sem sinais de feridas. No entanto, como é possível, se na noite anterior eu estava puro sangue? Acordei num hospital ou teria morrido? Ao lado da minha cama há alguns dos meus pertences deformados e sujos. Eu de fato parecia viver num mundo real e material e estava me dando conta disso. A minha vida estava salva? Ela já esteve perdida? Sentia minhas pernas e braços se mexerem normalmente. Contudo, meu corpo ainda estava sensível, principalmente o meu espírito, que continua à sua espera.

Faço esforço ao tentar lembrar-me do que aconteceu desde que percebi que o meu corpo e lataria pareciam se tornar um só. Nada concreto consegue se firmar em minha mente, mas as minhas lembranças do desejo de ouvir você permanecem. Parece irracional eu te querer neste momento de desespero, mas quero. Quando terminamos um relacionamento o pior de todos os fantasmas é a saudade e o impulso por compartilhar as coisas que acontecem. Se eu tivesse mais alguém que me trouxesse a sensação de segurança, poderia ser mais fácil. Eu não iria recorrer a você. Entretanto, cá estou diante de uma cama, num hospital e provavelmente com algum prejuízo na conta bancária, mas nada disso parece me incomodar mais do que a vontade em ter você por perto. Alguém teria avisado a você o que aconteceu comigo? Você iria vir me visitar? Que tipo de coisa passaria em sua cabeça? Com a possibilidade da perda, finalmente despertaria algum sentimento menos efêmero? Quero levantar, quero saber como está o meu rosto, será que está tudo bem? E se você me visse com um rosto diferente do que estava em suas recordações? É fútil pensar na minha aparência, quando aparentemente sobrevivi a um acidente, mas não consigo imaginar outra coisa. E se você me visse assim? A minha preocupação se expandia e o medo também.

Sento na cama e aciono o botão para que alguém possa vir me assistir. Espero ansiosamente pela chegada de qualquer rosto que indique que estou de fato vivendo uma vida no plano material e de que está tudo bem.

Ouço passos e a porta é aberta. Uma mulher de cabelos castanhos claros e algumas mechas brancas, reflexos da idade, entra no quarto. Sua pele indicava alguns anos de idade e sua boca tinha um batom vermelho claro quase imperceptível. Supus ser a enfermeira. Ela me encarou por alguns instantes e parecia pálida. Os seus olhos, também castanhos, indicavam espanto. Ela pôs as mãos na boca e se aproximou de mim:

– Você acordou! Isso é uma ótima notícia. – Ainda incrédula, colocou as mãos em uma das minhas. – O seu carro capotou, mas você não teve nenhum ferimento grave, está tudo bem.

Há pouco interesse de minha parte em saber detalhes do ocorrido, por enquanto. A minha única preocupação agora é em como você poderia me ver. Não gostaria que os seus olhos não conseguissem ver a beleza que irradio – Enfermeira, você poderia me conseguir um espelho?

– Está tudo bem, mantenha a calma. O seu rosto está em prefeito estado. Você só esteve dormindo.

– Não existe perfeição quando se rola infinitamente no banco de um carro. – Digo-lhe num tom sério, porque a ansiedade pelo espelho me dominava. Havia inúmeras perguntas surgindo em minha consciência agora e logo começo a dar sinais de que as respostas são uma necessidade vital para mim. Mas algo na fala dela repentinamente me volta à consciência e me chama atenção. – Por quanto tempo dormi? Alguém me procurou?

A enfermeira observa meu semblante por alguns instantes e, num tom apaziguador, responde:

– Algumas coisas aconteceram enquanto estava dormindo, mas fique em paz, deixe a tranquilidade se instaurar que tudo está bem. Vou providenciar alguma coisa para que possa comer.

– Espera um pouco, como assim “enquanto estava dormindo”? Quanto tempo se passou desde o acidente? Eu estou dormindo há quanto tempo?

– Repito que é preciso que se acalme e descanse mais um pouco. Você realmente precisa se recuperar. Pode haver fraqueza no seu corpo.

– Eu tenho direito de saber quanto tempo estava dormindo, por favor! – digo olhando-lhe nos olhos quase em prantos.

– Quatorze meses.

– Quatorze meses?

– Sim, mas tudo está bem. Seu caso nos foi um desafio, porque entrou em coma sem aparentemente nada ter atingido o seu cérebro. Você estava dormindo. Um sono profundo que ninguém compreendia. Quando seu carro capotou você teve apenas alguns ferimentos leves, mas nenhum dano grave em seu corpo. Nós tentamos te reanimar de diversas formas, mas você não reagia. Seu corpo permanecia funcionando normalmente, mas você continuava ausente de consciência. Infelizmente, você esteve dormindo durante esses meses.

– Essa história me parece confusa, não me parece algo aceitável. Não sinto que quatorze meses passaram. – paro por alguns instantes e dou atenção às folhas de uma planta, próximo à porta do quarto. – Alguém me procurou?

– Não. Infelizmente, ninguém. Você é deste estado? Alguém sabia de sua viagem? Estranhamos que ninguém tenha procurado você e não conseguimos localizar seus familiares, porque os documentos do seu carro se perderam no acidente. Nós temos o seu telefone, que está bloqueado para acesso à agenda telefônica, porque não temos a senha. Anunciamos o seu caso na TV local, mas não obtemos nenhuma resposta.

– Não consigo me lembrar para onde eu estava indo, só me lembro do carro capotando e várias coisas se passando em minha mente. Quem manteve paga a conta do hospital?

– Você está num hospital público. Não há conta.

III

As palavras da enfermeira penetram em mim como agulhas pontudas no meu ouvido. “Ninguém”. Sinal que você não me procurou. Parece que só eu senti sua falta e só eu estive pensando em você nessas últimas horas, digo, meses. Começo a chorar insanamente. A enfermeira me abraça e tenta me confortar. Você não veio, não me procurou, isso me doía mais do que a dor de ter sofrido um acidente e ter ficado em estado coma por tantos meses.

Entreguei-me às lágrimas e ao desespero sem resistir. Chorava insanamente e tremia o corpo em razão da pura frustração. Quatorze meses se passaram e você não me procurou, não quis saber de mim e provavelmente não sentiu saudades. E agora? A vida me parecia tão dura, que talvez eu inconscientemente tenha gostado de ficar por todo esse tempo dormindo para não ter de lembrar de que você não me procurou e eu, nos meus últimos instantes de vida, estava pensando em você. Minha mente se encontra tão bagunçada quanto na hora do acidente. Uma mistura sentimental me domina e eu perco toda a vontade de sorrir ou respirar.

Eu estava sob domínio do fantasma do término, completamente entregue a frustração e tristeza, por tudo que aconteceu. Do que adiantou eu ter colocado você para cima, ter confiado em você? Do que adiantou todo amor e carinho? Você não demonstrou nada, nem sequer me procurou. Agora eu estava me sentindo só diante de um mundo novo que eu não sabia onde encontrar forças para encará-lo. Novamente pensei em te procurar, porque você ainda é a minha referência de amor e segurança. Você se lembraria de mim depois de tanto tempo? É de você que eu me lembro, quando imagino o amor, mesmo que você não tenha me correspondido. Por isso mesmo dói, porque você significa muito para mim e eu, o que significo para você?

O fantasma do término me atormenta nesses poucos minutos após reencontrar-me com a consciência. Mas pensando bem terminamos o quê? Nunca nem começamos nada. O que me deixava entregue a angústia é imaginar que nesses meses outras pessoas entraram na sua vida e que você nem sequer lembraria mais de mim. E agora? O que devo fazer? Sentia um conjunto de sentimentos que eu não sabia muito bem identificar. Ciúmes, raiva, medo, frustração, amor, saudades. Tudo junto. O excesso de sentimentos era o vazio. O vazio, por sua vez, me machucava. O vazio era assustador e belo simultaneamente. Eu era o vazio e assustador, mas não via beleza em sentir o que sentia. Por que e para quê sentia? O que eu poderia fazer agora, num mundo sem você?

Observo ao lado, na minha banca, o meu celular. Há alguns arranhões, mas ele ainda parece inteiro. Peço à enfermeira que me traga um carregador. Uma única mensagem sua, um registro de ligação perdida seu, me daria esperanças e me faria sentir melhor. Minutos se passam, enquanto revivo o sentimento intenso da saudade. A porta se abre e a enfermeira traz o carregador com uma bandeja com alguns alimentos. Ligo o meu celular e aguardo alguns instantes. Instantes decisivos para um término ou recomeço. Mordo um pedaço do biscoito e então visualizo algumas notificações. 11.714 e-mails e mensagens. Apenas uma me traria o equilíbrio temporal. Vasculho rapidamente com as ferramentas de busca pelo seu nome e nada encontro. A dor volta outra vez.

Quatorze meses se passaram e você não me procurou. O que eu devo fazer agora? Caio em lágrimas outra vez. Como parece perversa a sua reação. Só eu senti saudades, só eu sofri com a ausência. A assimetria sentimental entre nós se agravou. Olho suas redes sociais e percebo que há meses saiu, se divertiu e viveu outras coisas. Mesmo com pessoas que você não tinha proximidade, você saiu e deu chances a elas. E por que comigo você não deu uma única chance? Isso me machuca outra vez. Em quatorze meses você não me procurou nem para me mandar uma mensagem? O que eu deveria fazer? Continuo me questionando. Você realmente sumiu, encarou como fim e eu não? Será que só eu criei esse fim? Esse fim, na verdade, é uma invenção minha para um começo do que nunca existiu? Estou entregue à confusão. Meu corpo se joga outra vez na cama e olho para o teto atrás de respostas.

Nada ainda é consistente e você ainda é saudade. Sinto-me idiota por ter tantos sentimentos por você e você não me corresponder nem com carinho ou mínima atenção. Relembro novamente das coisas que fiz por você, relembro de todas as coisas boas que te disse, porque você era refém da própria insegurança e eu só queria que fosse mais forte. Eu acreditava em você e você se tornava maior, quando percebia essa crença. Mas era tudo tão banal para você e agora, meses depois, percebo que não deveria ter te dado espaço. Dei segundas chances, esperei por mudanças, mas nada aconteceu. Em quatorze meses você não me procurou e nesses meses você parecia feliz da vida com a sua nova vida. E eu? O que ganhei além de escoriações e uma imensa dor no espírito? Tudo parecia bagunçado e realmente estava. Por que você não me procurou? Por que não conseguiu perceber tudo que fiz para você e por você? Sinto-me impotente diante da constatação de que eu não podia pedir o espontâneo. Mas isso me doía muito, perturbava. Por que não me correspondeu? “– Não posso pedir o espontâneo”, repetia enquanto sentia o peso da dor. E agora, o que eu poderei fazer? O recomeço me parece tão doloroso e distante.

IV

Saio do hospital e constato: terminamos. Mas realmente começamos algo algum dia? Nem nos nossos contínuos porres de infinidade não imaginávamos e nem sonhávamos com este fim. Contudo, ele existe. Nós terminamos. Quem dera fosse como nos filmes em que o “fim” aparece escrito em letras garrafais, num corte rápido, sagaz e conclusivo. Os créditos sobem e em seguida tudo se esclarece outra vez. A vida flui com o término dos filmes e nada é tão perturbador. No entanto, não. O nosso fim não é dessa forma e nem poderia ser. Sofri um acidente e ele era a prova de que nem se eu estivesse para morrer, você voltaria a me procurar. Como conviver com essa infeliz conclusão?

Me pego, de repente, protagonizando a clássica cena em que revejo as fotografias de dias felizes em que estávamos bêbados de infinidade. Recordo também de quando eu estava garupa de sua bicicleta, rindo, e corríamos numa velocidade insana atrás dos nossos desejos realizados. A química entre nós era notada por desconhecidos, que sentiam empatia por nós e por nosso envolvimento. A proximidade e companheirismo vilão virou prisão, virou essa dor de não ter você.

O fim chegou e como ele não é automático e o nosso relacionamento me deixou consequências, me pego usando o que vivemos como base para comparar situações passadas e futuras. Me pego com medo de me relacionar outra vez e passar por todo sofrimento que passei. Você era o ponto de equilíbrio que eu recorria sempre que tudo estava confuso ou temia o futuro. Tenho dúvidas se realmente algo existiu ou se criei tudo na minha cabeça.

Num lapso irracional, ou talvez espontâneo, me pego no telefone discando o seu número novamente, que já nem na agenda estava gravado. Queria contar-lhe o que aconteceu nesses últimos meses. Você me escutaria? Mas antes que eu aperte o botão para chamar, caio em mim e percebo que já não há espaço para mim, nem para uma amizade.

Contradição. O fim com essas três letras é contradição. É insano eu não desejar compartilhar minha vida pessoal com você e partilhá-la, no primeiro momento mais íntimo e de fragilidade. O que passa entre nós ainda? Mais uma vez estou refém do sentimento do fantasma do fim? As suas fotografias, as comparações mentais, os convites a eventos banais e os formais – que você faz questão de sempre negar – como livrar-se desse costume e não sentir falta de sua companhia? Parece que você leva a história num outro tom, parece fácil, para você, se relacionar com outras pessoas tão rápido e mais fácil ainda descartá-las, como fez comigo nesses últimos meses, antes do meu acidente.

Recordo da vez em que te disse "se você destruir o amor que sinto por você, você estará fazendo uma das coisas mais estúpidas de sua vida", mas não é que você fez, ou melhor, vem fazendo? Do que adiantou tudo que fiz por você? Do que adiantou lhe fazer acreditar em si e fazer acreditar que era especial do jeito que é, mesmo com defeitos? O fim me parece doloroso, porque só eu pareço sofrer. Sofro, como em boa parte da nossa história sentimental, por dois. A sua frieza segue me assustando, porque cada vez mais parece sofisticada. Seu cinismo também assusta, sobretudo porque não julgo merecer conviver com todos esses seus lados tão vis. Adianta ser unicamente bom? A diferença entre nós é que eu aprendi a conviver com seus erros e me esforcei muito para isso. Você não. Parece coisa de gente egoísta você não ter feito o mesmo esforço. Talvez você seja mesmo.

O que terá acontecido nesses meses que não me procurou? Tenho medo de procurar qualquer coisa que possa me ferir ainda mais. Me pego preso nesse assombro, em que procuro você, porque você ainda é a minha referência sentimental e tenho saudades. Mas e quando passar? Quando formos estranhos como antes de nos conhecer? Será que chegará o dia em que eu não conseguirei te reconhecer? Em que a intimidade e vínculo irão evaporar, como um susto?

Minha cabeça parece em chamas. Olho você com atenção, porque sei que tudo que fez e tem feito é coisa de quem tem medo e ao mesmo tempo quer um pouco de tudo. Mesmo ciente, machuca. Sua insegurança e ansiedade em ter todos e tudo, te coloca em situações ruins. Mas há algo nesse fim que eu tenho levado em conta: eu não desejaria ser a sua versão atual e menos ainda a futura, que irá conviver com este fardo.

Queria dizer tudo que estou pensando agora para você. Entraria na sua casa e obrigaria a você ouvir tudo que aconteceu nesses meses e tudo que estou sentindo. Sei que não faria isso, porque teria medo do que poderia sentir ao perceber que pouco se importaria. Como parece insensível a um amor tão espontâneo e que você mesmo cultivou, pelas suas necessidades emocionais. Agora que encontrou outra pessoa, me descarta assim?

Dizem que perdemos a visão com o tempo, mas vejo de forma contrária. É justamente no futuro, com esperanças de maturidade, que você verá o que foi capaz de fazer com um amor e com quem só quis te amar. Não queria estar no seu lugar neste dia e nem conviver com a dúvida do "e se eu aceitasse aquele amor?" ou "e se eu tivesse mais atento para não ferir tanto?". Pois é, terminamos. Terminamos o que nunca começamos? O que só existiu em minha cabeça, segundo você, porque você um dia incentivou a acreditar em algo mais. Incentivou? Achei irresponsável e egoísta a sua atitude, conquistar para descartar sem usar é mero egoísmo. Parece até essa geração que compra de tudo, não usa e em seguida descarta. Já se sentiu descartável alguma vez? E quando sentimentos estão envolvidos? Só com a maturidade você entenderá como esses sentimentos eram e são intensos. Confesso que estou sem amparo. Acabo de sair do hospital, como vou recomeçar a minha vida?

O curioso é que quem termina sempre acha que sai por cima, no entanto, há uma armadilha silenciosa que cedo ou tarde chegará. O arrependimento e a dúvida são a maior tortura silenciosa que alguém pode desejar ao outro. E quanto ao amor desperdiçado, a certeza de que não aproveitou ou deu chances a ele, quando outra pessoa entra em cena e aceita tudo que o outro desprezou.

V

Me pego na cadeira do escritório refletindo sobre tudo. O que terá acontecido naquela noite do acidente e nesses quatorze meses? O fim perturba, quer virar presente outra vez. Mas adiantaria viver a sombra de algo que só serve de adorno a um vazio seu? Seria estúpido de minha parte viver de emulações sentimentais suas. E ainda que eu tenha dado incontáveis segundas chances, você optou por destruir esse laço. Não só perdi uma vida nesses 14 meses em coma, como perdi a minha autoestima e confiança.

Ontem nos vimos outra vez na fila de uma lotérica no shopping, e você foi incapaz de me perguntar se tudo estava bem. Talvez agora você entenda, porque tenho evitado abraços tão falsos e cumprimentos forçados. Adianta emular carinho e atenção? Desisti de impor espontaneidade. Você deixa claro sempre que só precisa das pessoas, enquanto as suas necessidades afetivas estão em êxtase, porque, em seguida, as descarta e friamente segue feliz com a consciência de que fez o certo. Você faz o certo?

Contudo, as coisas mudam e não vai haver um castigo maior do que você conviver com o quê você é e com a consciência de dor provocada que cedo ou tarde te chegará. Talvez agora entenda a gravidade das coisas que faz sem pensar, com as frases soltas ditas as pessoas que te amam. Mas como dizem por aí, nem sempre o amor dado é o amor que se merece receber. Como eu poderia perceber que era este o meu caso?

O complexo de sentimentos que sou e tenho é o verdadeiro motivo de tudo. Quatorze meses refém de um acidente, quem consegue conviver com isso? Até hoje não sei se devo investigar o que aconteceu com a minha vida anterior ao acidente. Deixei aquela vida inteira para trás. Retornei a minha cidade, mas não a mesma vida. Eles acreditavam que eu tinha morrido ou estava preso a uma dimensão temporal, que nunca mais iriam me ver outra vez. Que surpresa rever alguém que achou que tinha morrido. Elas parecem felizes ao notarem que sobrevivi. Contudo, mesmo sem saber de muita coisa, existe algo que ainda não consigo conviver.

O som da palavra “ninguém” que saiu da boca da enfermeira me faz pensar em como é doloroso carregar o fardo de não ter ninguém, em como é doloroso se manter em coma e preso às situações, enquanto todo o mundo se transforma. Amar alguém que te ver como ninguém é viver em coma? Amar ninguém e ver as transformações do mundo sem emoções é viver em coma? O que levar adiante quando esse som ainda me perturba, machuca e convivo com um fantasma que pode nem ser real? Eu sou o ninguém que quase morreu porque amou (um) ninguém.

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