Bateria descalibrada






Você está aprisionado a si mesmo e não pode resistir às próprias limitações. Está apenas a mais um passo de rejeitar as suas conclusões e lições. – Que saco. Estou cansado de tanto aprender – resmunga. Aos poucos sente o tempo passar e o seu corpo envelhecer. A vida lhe parece justa agora, depois dos 30? Parece que a sua bateria está descarregando e por isso age com a pura visão de que tudo, de repente, pode terminar. Onde está o seu futuro?

Por outro lado, suas chances em mudar parecem cada vez maiores, porque aceita as diferenças, sem que sinta que o seu mundo irá terminar. – O intenso não é mais tão assustador, mas ele ainda me causa impacto – lembra. No fundo reconhece que está num mar brabo consigo mesmo e sente vergonha das lágrimas que caem quando está sozinho se observando e a tudo que já experimentou.

A bateria segue gasta e a impressão de que o tempo está acabando também. O seu interior parece descalibrado. Mesmo com tantas voltas dadas e a impressão de que já aprendeu demais não consegue perceber o que há de mais maravilhoso em si, a sua singularidade e força. Como parecem severos os fatos que drenam a energia de tal bateria. – A impressão que tenho é de que o meu cotidiano me engole – interpreta.

Mudanças. Outra vez está mudando. O seu corpo escravo e condicional do seu espírito se prepara para aceitar os efeitos e o tempo outra vez. No entanto, tudo ainda continua incerto e permanece sem saber o que fazer. – A minha escala de tempo pessoal é tão destoante do tempo social. – resmunga.  Sua bateria está descarregando e você é a maior energia que pode conquistar, no entanto precisa aceitar a si mesmo e as próprias limitações.

– Não sei o que esperar do futuro, tenho medo de que ele seja uma extensão do presente. – reflete. O medo que sente do futuro é uma defesa. O seu desejo de encontrar-se consigo mesmo, através do tempo, é uma fantasia ingênua. Você sabe que é pelo tempo que se prende ao mundo. O tempo é a experiência crua pronta para conversão em aprendizado.

Como ele gostaria de se sentar numa mesa e com o tom das conversas informais, bebendo cerveja e água no restaurante copo sujo, convencer-se de que a sua atual versão não passa de um ruído perto do tamanho da felicidade da versão futura. Seus olhos brilhariam, mas sem escorrer lágrimas, e então perceberia o quão é maravilhoso olhar para si mesmo e voltar a sonhar como fazia aos sete anos. – Apelidei e nomeei muitos desejos de “futuro”.  

Tudo bem. Você pode continuar sozinho, mas ainda tem a si mesmo. Talvez essa seja a maior e mais intensa convivência de todas. No fundo sente que só quer relaxar, quando a pilha realmente descarregar. Às vezes, em meio às introspecções que vem do ser, só quer acreditar, que mesmo com a pilha drenada, tudo realmente passa e de que as impressões de hoje são meros ruídos diante do conteúdo total.



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