Ad infinitum





Gosto de acreditar em que tudo que entendemos por vida está relacionado ao aprendizado. De tal forma, imagino que compreender as lições da vida seja um desafio constante. Talvez o maior de todos eles seja essa mistura a qual está condicionada à nossa existência. É desafio porque envolve partes não totalmente conhecidas. Duas partes misturadas e paradoxais: carne e espírito. 


A carne é matéria bruta, limitada, existe e se transforma através do material. O espírito, por outro lado, é além da carne e é nele que se estaciona o conhecimento e aprendizado, as tais lições-desafio. A vida segue com um propósito único: nos fornecer insumos para novos capítulos do nosso próprio livro. É como se cada experiência fosse um fascículo e o conjunto deles uma grande enciclopédia. Um dia o livro se torna completo e se junta a outros. 


Entretanto, o conhecimento não vem de forma gratuita. Nem o tradicional, que aprendemos nas escolas, menos ainda o espiritual, por isso a contradição e tensão entre a carne e o espírito. A carne tende sempre para o imediato e material, que é o que lhe dá subsídio. O espírito, no entanto, é num outro ritmo. É mais lento porque, ao contrário da carne, não tem prazo de validade. Ele está no campo do transcendente.


No caminho dos dois existe o amor, que é uma das formas de misturar essas duas partes. Mas amor, até onde consegui aprender, ultrapassa a materialidade e o lado perecível da carne. Amamos quem nem podemos ver. A intensidade e veracidade é uma das marcas visíveis, porque altera o comportamento, perturba a rotina. Contudo, creio que a principal marca do amor seja a de não esperar retorno. A lição do amor é de que ele apenas surge e nos compõe. É mais uma condição de dentro para fora, do que de fora para dentro.


Quanto mais fornecermos sentimentos puros, como é o caso do amor, esperando receber de volta o mesmo que damos ou julgamos merecer, mais nos frustraremos. A frustração vem das comparações sentimentais também. Isso não quer dizer que não deva existir correspondência, ao contrário, mas que esta não seja uma cobrança, um excesso. 


O excesso é a nossa principal limitação. Por sermos carne, por trancarmos o espírito em prol do tempo diário, isto é, a rotina que experimentamos com os semelhantes, nos contentamos e buscamos o excesso pelo medo da pobreza. No entanto, todo excesso sempre revelará uma pobreza ímpar. Toda riqueza é refém de um medo. O equilíbrio surge como um dos caminhos para paz, mas até o excesso dele é um problema, por isso o cuidado, a vigilância e renovação dos fascículos.


Amar sem pedir nada em troca parece absurdo, num contexto atual em que se preza o imediato e individual. Porém, imagino que esse é o desafio e é esse o sentido do amor. Não se escolhe quem amar, apenas se ama. A carne, por ser limitada ao tempo e espaço, tende a ler essa intensidade (que é amar) através do material. Por isso a tendência a posse ou ao egoísmo. 


A carne pede pela proximidade, pela interação e emergência dos impulsos, motivados por regras sociais. O sentimento, paradoxalmente, pede que libertemos todas essas materialidades superficiais e nos entreguemos apenas as sensações e aprendizados. Evidentemente que um não exclui o outro e isso não quer dizer que não exista fidelidade e carinho. Menos ainda de que agir assim seja fácil. Nessa tensão de carne e espírito, a liberdade, espaço e respeito ao outro, não pode se resumir a indiferença, individualidade e excessos, embora esse seja o caminho mais fácil. O medo pode ser a nossa principal prisão sem grade.


Espírito e carne se completam, mas nunca poderão ser a mesma coisa. Talvez por isso a combinação mais contraditória e extraordinária constitua o que conhecemos como humanidade.





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