Flores de 45


Ele voltou da batalha de meses
De sangue doado e suor derramado
Mas não havia uma única chaga visível em seu corpo
A batalha era em espaços abstratos e profundos

Embora várias vezes não tenha sentido as suas pernas
Dias após dias, nos meses que passaram
Podia movimentar-se infinitamente,
Mas não o fazia

Ele viu o vivo morrer nas mudanças de estações
A semente apodrecer antes de virar fruto
E não sabia de qual lado
A ameaça poderia vir e atingir

Sentiu o clima da era dos relacionamentos falidos
Da desconfiança contínua
Da posse disfarçada de amor
Do clima de guerra fria

Não se sabe o quê se esperar
Nem de qual lado virá
E se a ansiedade e dor irão cessar

Os relacionamentos são presos à miragem
Em que tudo é perfeito e viralizado
A proximidade se mantém pelo distante

Parece que tudo só funciona no volátil
No plano das imagens, da superficialidade, como é fácil
Na submissão forjada na aceitação do incerto
O clima é de não saber o que pode vir

Como parecem tolos
Os que fingem sentimentos para si
Na era em que as miragens são estruturantes
As flores murchas de 45 ainda estão por aí

Não se sabe o quê está por vir
Nem o quê se esperar de quem está próximo
Nem dos que julgou conhecer e confiar
São tempos de flores murchas

Flores contaminadas de radiação
Em tempos dos relacionamentos falidos
Oprimidos com tons de permissividade e felicidade 
Mas agonizados na prisão invisível do clima de guerra fria






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