Travesseiro



A madrugada é só cochilo abraçado ao travesseiro
Mas a insônia me faz levantar a cabeça e notar
Que ele virou um corpo estirado no chão
Deve ter cansado do que falo de você todas as noites

Cansou-se do abraço forte,
Dado ao ser confundido com você
Das minhas mãos deslizando suavemente pelas linhas da costura
Ao imaginar serem as suas veias e curvas

Deve ter cansado do nariz muito próximo
Por delirar que o cheiro do amaciante
Pode substituir o seu cheiro
Quando estou sem você, a saudade me tira toda racionalidade

O meu travesseiro se jogou da minha cama
No movimento de própria salvação
Porque deve ter se cansado dos lamentos
Das lágrimas que caem, quando a saudade e ausência passam a ferir

Se jogou porque sabe que não morreria fácil
E que ao eu sentir falta, o encontraria outra vez no chão
Abraçaria de novo a qualquer hora
Por reconhecer não encontrar você sempre

O travesseiro sabe o que quero e imagino
Jogou-se sem culpa de interferir no destino
Ignorou o fato de que sem ele a sua ausência dói mais
Porque você se torna ainda mais ausente

O travesseiro se jogou dos meus braços
Porque já não aguentava reclamações
Nem das aceleradas do coração abafadas no abraço
Cansou-se da companhia incompleta

Caiu seguidas vezes
Enquanto na madrugada reclamava sozinho
Ao menos com o travesseiro a saudade parecia finita
Mas o desespero sempre (re)surgia

A saudade acelerava o meu corpo
Tudo se mantinha vivo e baseado na esperança
De você se tornar o travesseiro
Mas tudo se resumia a lâmpada acesa em dias de sol forte

O meu travesseiro se jogou da cama
Porque ele já não aguentava ser você
No fundo quis te lembrar
Do seu lugar ao meu lado

Do abraço singular dado,
Que dá fim à insônia de expectativas,
Cor e forma ao amor que quer ser experimentado,
Sabor ao beijo roubado imaginado,

E sentido para o coração apertado e acelerado 

MAIS DE ÓTICA COTIDIANA