Conversas imaginárias






Sozinha no caminhar de volta para casa à única coisa que distrai os olhos de Laura são os fios dos postes da cidade. Segue o percurso, como um avião em piloto automático. As luzes chegam ao seu rosto, mas nenhuma consegue dar clareza e paz ao que sente. Disfarça a respiração durante todo o dia e no primeiro sinal de segurança, retira os disfarces.
O corpo esguio despenca na cama, com mais leveza da carne do que do espírito. Descansa a cabeça no travesseiro e se prepara para o ensaio espontâneo de mais uma conversa imaginária da noite de insônia. O vento circula no seu quarto e espalha o som das palavras avivadas pela sua voz baixa e tímida. O desejo é de chegar aos ouvidos de André, para que ele mostre ter entendido o que ela sente, abraçando-a forte até o momento do beijo, logo em seguida.
Laura treina assuntos nas conversas imaginárias que provavelmente nunca usará. Se sente bem, porque parece ser tudo que tem. É a forma mais fácil de dar eternidade ao sentimento por André. Gosta de imaginar ele atento ao que ela diz, na demonstração de amor, ao valorizar cada um dos segundos juntos. Sobretudo, quando estão próximos e sentem a respiração um do outro, ainda que ela não consiga prever qualquer reação de André. Parece próximo, mas ao mesmo tempo distante.
O momento severo para Laura é o de quando o papo imaginário cessa. Então tudo que lhe resta é o silêncio. O silêncio poderia ser bom, se eles estivessem juntos conversando pelos olhos transmitindo o que sentem. No entanto, os olhos dela estão fechados e os de André distantes dos seus. É noite e está tudo escuro. Sustentar André só na sua imaginação lhe causa dor, porque ela precisa dele e de tudo que a sua imaginação não pode dar.
Laura procura coisas na mente para se distrair. No entanto, o mais forte é o sorriso de André e o seu cheiro. Assim como a lembrança do cruzamento de olhares, desde o dia em que se conheceram. Da alteração da respiração e dos disfarces usados até então. Relembra o silêncio entre as conversas e o que ele diz. Tal como a marca imaginária no seu corpo ao receber o beijo e o abraço a cada chegada e despedida. Se sente injustiçada pelos movimentos e pelo silêncio.
          O silêncio é a parte desesperadora. Ele a lembra de que André não está onde ela está, e de que está sozinha. Também a faz duvidar se André realmente existe e como a solidão tem a destruído. Num dado momento o rapaz pareceu dar fim a esta destruição, por tudo isso mantém os momentos em que passaram juntos, com a violência da urgência em se amarem.

*Texto experimental.

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