A garota dos círculos







Sobe os créditos de mais uma comédia romântica e a garota suspira bem forte, por constatar não conseguir encontrar o amor da sua vida numa praça, como no filme visto. Ao seu redor, as comidas clichês de quem quer superar a dor da solidão e das frustrações, com o que parece mais fácil e que permita as pessoas perceberem o seu estado de espírito. Ela precisa dizer para o mundo o que sente, precisa e não tem.
No seu canto, respira o ar da nostalgia de outro tempo não vivido, e o ambiente romântico imaginário. Mesmo assim, todas as noites ao por a cabeça no travesseiro, deseja como ninguém ter ao menos a chance de experimentar esses sentimentos que tanto perturbam o seu equilíbrio. A culpa é tão companheira, quanto à solidão.
No dia seguinte, ainda que descrente, senta no banco da praça e suspira mais uma vez. Ativa as lembranças da solidão e desejos frustrados. Num ato mecanizado e automático, retira o celular do bolso e põe os fones no ouvido. Escuta a melodia dos solteiros que esperam o amor. Mergulha a cabeça, atenção e pensamentos no mundo visto diante da tela. Passa os dedos aqui, ali, enquanto ri e se entretém com o que vê.
Escureceu. Mais um dia chegou ao fim e as primeiras constatações de fracasso começam a dar sinais. Dezenas de pessoas passaram ao seu lado, enquanto via o mundo através das telas. Nem sequer notou, o tempo que passou. Em meio a tanta imersão ao universo paralelo, frágil e facilmente penetrável, não se deu conta de que o amor tão ansiado passou por ela, assustou-se e se foi.
Sobem os créditos da comédia romântica e a garota suspira bem forte se preparando para repetir o ciclo e reclamar da sorte.
– Tudo parece injusto, o que fiz para merecer? – queixa-se. 
Preocupa-se com o tempo e com o envelhecimento. Apaixona-se por modelos de relacionamentos, facilmente encaixáveis aos parceiros aleatórios. Nomeia uma lista de fatos e culpados, mas escapa-lhe a noção de que a sorte não consegue passar pela tela e pelos seus dedos, para só então poder alcançar os seus olhos e espírito. Os seus olhos dependentes desse tipo mediação, preso a círculos mecânicos, são os mesmos que durante a noite, reclamam com lágrimas a própria solidão. 


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