Folhas secas





Folhas secas caiam lentamente sob o meu ombro, junto com o peso de algo que estava secando, ou em fase de mudança. Não entendia muito bem o porquê das folhas caírem durante a primavera e verão. Da mesma forma, não permiti que essas folhas continuassem a cair nos meus ombros, já que, o que estava por vir, supostamente era o que não estava mais vivo.
Observei pela janela, do outro lado da rua, folha por folha cair. Eu que pensei que as folhas cairiam apenas em uma época do ano, por algum motivo, me enganei. As folhas caíam sem parar, lentamente. É como se àquela árvore estivesse se autodestruindo,  como se alguém tivesse feito algo para que ela pudesse secar mais rápido que o normal.
Algumas árvores são centenárias, ultrapassam a expectativa de vida de muitos humanos, perpassam gerações. Mas esta secou tão intensamente, que acreditar em uma recuperação, já significaria a materialização de um desejo e fé, talvez cega.
Mas não assisti as folhas caírem o tempo inteiro. Durante muito tempo fiz de tudo para manter a árvore viva. Reguei, nutri, retirei várias vezes muitos insetos e pragas, e ainda me certificava de que ali tinha luz e energia, suficientes para a manutenção de sua vida. Quando a gente considera algo importante, tentamos manter e salvar, mesmo que nosso esforço pareça inútil.
Nada adiantou, existem etapas que estão além dos nossos esforços. Ao que parece, a árvore secou por esforço próprio. Não lutou para sobreviver, para continuar ali na minha vista, assumindo papéis importantes.
Eis que passou mais tempo e o processo de autodestruição continuou. Ela não reagia, as folhas caíam sem parar. Por vários dias deixei a minha janela e atravessava a rua tentando salvar o que achei que devia ficar vivo. Meses e meses, até que as folhas terminaram de cair. O vento as espalhou e elas dançaram pelo ar. Em alguns segundos, se perdeu toda àquela árvore no espaço.
Não posso dizer que não tentei salvá-la. Ainda enquanto era só tronco, reguei e tirei as suas pragas novamente. Tudo parecia bem, simulava sobrevivência. Acreditei, tentei, confiei. Recomeço. Mas novamente àquela árvore se autodestruiu.
Voltei à janela e resolvi fechá-la para que não pudesse mais ver àquilo, que às vezes me incomodava. Ninguém gosta de ver algo que considera bom se destruir por conta própria. Prometi não atravessar a rua e deixar que a árvore siga o seu curso sozinho. Cumpri a promessa com sacrifício, resistia a vontade de voltar, ajudar e conquistar a vida outra vez. Às vezes, precisamos deixar que algo morra completamente, para então sermos livres para o verdadeiro recomeço.
Dias depois, lá estava um buraco vazio. Ele me incomodou. O tronco apodreceu e as pragas já haviam o devorado. Pareciam felizes. De fato, às pragas desejavam alimentar-se daquele processo de autodestruição, para as pragas, o que considero podre é comida de luxo. Talvez elas tenham sido aceleradoras, por um processo iniciado pela própria árvore.
Do imenso buraco formado pela ausência, punhados de terra orgânica para fechá-lo. Pois ali, naquele espaço, que estava sempre de frente para minha janela, poderia nascer algo novo. No começo senti falta da sombra, do conforto e do prazer em tê-la em meu horizonte, mas procurei olhar para os lados e ver outras árvores daquele mesmo horizonte. Não restava mais nada, além de deixar o tempo passar.

Meses depois...

Parecia que nunca existiu uma árvore seca e autodestruitiva naquele lugar. Nasceram gramíneas. A sombra daquela antiga árvore já não fazia falta. Sem as sombras pude perceber o quão vasto é o universo, nas vezes que em que encarava o céu extremamente pálido em seu azul sem nuvens.
Agora já tinha certeza de que, por mais que desejemos manter algo, porque é belo aos nossos olhos, este, quando entrar em um processo de autodestruição -- ainda que você tente ajudar de diversas maneiras, obtendo ou não o retorno -- irá continuar até a finalização.
Quando percebemos algo de bom se autodestruindo e nós mesmos somos os culpados, se realmente nos importarmos, buscaremos salvar. Caso contrário, aceleramos processos e abrimos espaços para algo novo e melhor.
Em nosso jardim devem ficar apenas os melhores frutos. O que está podre, se deteriorando, certamente servirá de alimento para àqueles que se alimentam disso -- as pragas -- e toda semente morta é adubo para o recomeço.
Antes de tudo, valorize o seu horizonte, plante mudas que realmente valham a pena. Cuidado com as incompatibilidades, elas farão mal as outras mudas. Tenha sempre em mente que a seleção natural deverá permanecer e que, apesar de árduo, o processo é também saudável. 






Comentários

  1. Também vi uma árvore morrer, e também tentei fazer de tudo para que isso não acontecesse.
    Ainda sinto muita falta de sua sombra...

    Ótimo texto!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  2. Também vi uma árvore morrer, e também tentei fazer de tudo para que isso não acontecesse.
    Ainda sinto muita falta de sua sombra...

    Ótimo texto!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  3. Também vi uma árvore morrer e também lutei para que isso não acontecesse, mas não adiantou. :(
    Ainda sinto muita falta de sua sombra...

    Ótimo texto!
    Beijos

    ResponderExcluir
  4. Realmente Carol, a gente sente falta da sombra, do conforto, mas, se ela se destruiu, o que podemos fazer se não adubar e deixar novas árvores surgirem?


    Obrigado pelo comentário, beeijos!

    ResponderExcluir
  5. ótimo texto vini, sempre me identifico com o que você expõe!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Bem-vindo a Ótica Cotidiana!
Obrigado pela visita e leitura do texto.


Participe deixando a sua opinião, comentário ou questionamento sobre o texto.

NOTAS :

- Não serão tolerados qualquer mensagem contendo conteúdo ofensivo ou de spam.
- Os comentários são de plena responsabilidade dos seus autores, ainda que moderados pela administração do site.
- Os comentários não representam a opinião do autor ou do site.

MAIS DE ÓTICA COTIDIANA