Normalidade humana? O quê é normal?


Escuto por aí, por aqui e em todo lugar a expressão ‘é normal’. Eis que tento, em inúmeros questionamentos, entender o que significaria este normal, já que tudo muda tanto e tantas pessoas falem.
Sentei atrás de duas pessoas que conversavam sobre uma das manchetes do jornal, que trazia a notícia de uma chacina em um bairro popular e periférico. Mascavam chicletes e pareciam marcar também as linhas da reportagem com a mesma normalidade e proveito. Entre comentários e um debate micro, disseram: ‘é normal, é assim mesmo!’.
Normal? Pergunto-lhes hoje o que é normal? É normal que deixemos de nos importar com o outro neste estado? É normal deixar com que políticos sempre sejam corruptos e que a educação seja sempre precária? É normal continuar a exploração dos menos favorecidos, para que um grupo se mantenha com luxos e atuando como opressores? É normal fazer de tudo para ser o opressor? É normal achar política assunto chato e distante?
É normal dizer ‘pouco me importo’ com o que aconteceu com o meu colega de classe que senta há poucos metros de mim em outra sala, com a mesma arrogância de quem comprou o que há de mais novo? É normal achar que é melhor que aconteça com os outros do que com a gente? É normal desejar que levem as coisas do outro, mas que não levem as nossas, por serem nossas? É normal ter necessidades que não são suas para sustentar as aparências?
É normal ignorar o trabalho infantil, porque usar algo produzido por eles é mais importante? É normal querer ficar rico, sucesso e passar por cima de quem estiver no caminho? (Outra expressão comum: ‘passe por cima de quem estiver no seu caminho para conseguir o que quer’). É normal não acreditar no futuro e se resumir ao: ‘é sempre assim, desde a minha época... eu quero é sair daqui!’?
Pergunto-lhes: é normal receber sempre as migalhas, se contentar com elas e continuar com fome? Continuo perguntando: o que este ‘é normal’? Seria uma forma moderna de conformismo isenta de responsabilidade? Porque talvez eu tenha concepções errôneas deste mundo, por não achar nada disto normal.
Há quem diga que sensibilidade para enxergar e se colocar no lugar do outro é coisa de quem quer ser lesado, já que estimulamos comportamentos em prol do interesse individual. Com os outros será como mascar um chiclete: saboreei, usei e descartei. Não está mais comigo, não chegando até aqui, tudo certo. Não é confortável pensar assim? Há quem engula este chiclete porque depois de tanto mascá-lo, o gosto foi tão bom, que nem percebeu que engoliu.
Nada vai isentar a responsabilidade, porque o fato ainda é real. Mas como muitos estão ocupados demais pensando em si, a reflexão se resume ao ‘deixe disto, é normal!’.


Comentários

  1. Esse post para mim soou como uma continuação do anterior, pq as temáticas tem tudo a ver! Achar tudo normal é uma prova de que as pessoas, de fato, se costumaram a se acostumar! É uma triste realidade, mas não pode deixar de ser encarada...
    As pessoas estão cada vez mais inclinadas à realização de desejos e às preocupações individuais, sem levar o outro em conta. Chegamos a um nível de individualismo e egocentrismo tão grande e tão exagerado que, para muitos, a solidariedade não mais faz sentido!
    - " É, tem tanta gente com fome na rua, de que adianta eu fazer alguma coisa? Isso já é tão normal..." -> situações como essa são cada vez mais comuns em nossa sociedade, a qual está cercada de pessoas que estão individualmente 'cercadas', atomizadas, preocupadas consigo mesmas e nada mais...
    Mas todo esse caos me dá espaço a dois questionamentos: de onde será que vem tudo isso? será que isso é intrínseco do ser humano ou são as relações sociais, políticas, culturais que nos envolvem interferem nas nossas atitudes?

    Às vezes até penso que sei as respostas, mas o ser humano e as relações sociais são tão difíceis de compreender que começo a pensar que não há nada normal nisso....

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  2. Luly Fiquei extremamente feliz com seu comentário. Realmente anda muito difícil compreender, acho que estamos agindo sem um pouco de lógica e temos um sentimento de caos constante.

    Enfim, acredito que tudo isto vem de um tempo que não necessariamente pensou no nosso e acredito que iremos para outro que temos medo, mas que nada fazemos - ou muito pouco - para tentar mudar...

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  3. como sempre me fazendo refletir né cara?
    ótimo seu texto!

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  4. Mano, eu acho isso bem relativo. Vou te falar que num fiquei surpreso nem triste nem feliz ao ler isso. Não da para pensar no mundo todo se você não vive, tambén não sa para pensar só em você se não você só existe (e não vive). Tentar ajudar a todos te fará entender que algumas pessoas simplesmente NÃO SE AJUDAM mesmo quando podem pois se acostumaram ao comodismo mesmo quando ELAS podem e devem ser ajudadas ¬¬ e outras que realmente devem ser ajudadas não são pois alguns já estão cansados de ajudar e tals.
    Particularmente falando eu assumi uma postura que será dificil mudar: Ajudo quando posso e da forma que posso. Me questiono sempre e sempre que tento causar questionamento a outros é para algo que sei que podemos mudar, não para qualquer coisa como a fome mundional ou o desmatamento na Amazônia... e quero que outros humanos compreendam que o mundo é assim para que todo o sistema possa viver. Quero também que todos compreendam como o sistema funciona para que possamos mudá-lo de forma correta, sem ser aos pouquinhos... vai demorar muito, mais quem sabe. Por hora, como eu disse, sem espanto e sem alegria, volto a pensar: Não tenho comodismo e tento desacomodar as pessoas ao redor, para as que sentam que fiquem lá.

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  5. Jadiinho:

    Muito obrigado pelo comentário!
    Fico feliz que tenha refletido =DD

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  6. Blog do Rafa:

    Excelente comentário Rafa, fico muito feliz em você ter tocado em um ponto muito interessante: 'ajudar quando posso e da maneira que posso', sem dúvida acredito que é justamente assim que devemos pensar para mudar o mundo e as pessoas que estão ao nosso redor. Muito bom saber também tenta desacomodar as pessoas, também tento, por isso escrevo textos assim para que reflitam sobre os seus atos e suas aspirações.
    Fiquei muito feliz com suas palavras, de verdade, acho que se mais pessoas pensarem assim teremos um mundo ao menos mais agradável.

    Forte abraço e obrigado pelo comentário!

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