Conspiração: Parte IV



  




AVISO: Este conto é um texto puramente fictício. Todos os personagens e situações envolvidas foram criadas. Qualquer semelhança é mera coincidência. 

   


IV

Ao chegar à universidade vi mais uma vez o grupo que oferece cartão de crédito de dois mil reais. Acredite, não aguento mais! Sempre me param e eu já não tenho mais voz e cara para dizer que não quero. É tipo gente chata em balada. Fiz cara de desentendido novamente e fui andando escutando música. Nada adiantou. Me pararam e começaram a falar tudo que a criatura havia me falado pela manhã no telefone. E antes de ela chegar à associação dos velhinhos de São sei lá do que, parei e tirei os meus óculos:

– Veja bem (a minha vez de usar o veja bem), uma amiga sua me ligou mais cedo e me deixou muito irritado. Quantas vezes já passei por aqui?
– Várias, todos os dias. Nem sei. - respondeu sorrindo.
– E quantas disse que queria ou demonstrei interesse?
– Nenhuma. Mas são dois mil reais de limite, senhor!
– Por que sempre dá ênfase aos dois mil reais de limite? Está me chamando de pobre é isso? Pois a administradora de cartão de crédito não tem ideia da burrada que faz ao contratar vocês para vir aqui torrar a nossa paciência por um cartão, que a grande maioria dos universitários não terá condições de pagar. O povo tem mania de achar que nadamos em dinheiro! Sabe quanto gasto por mês só em xérox? Sabe quanto custa um lanche aqui dentro? E as passagens de ônibus? Inflação altíssima, meu bem! Pois, oferecendo um cartão desses é lógico que muitos não terão a condição de pagar. Estou feliz com o meu limite de R$ 300, é o suficiente para os livros. Tenho certeza de que vocês querem provocar um suicídio coletivo universitário. Sabe por quê? Porque quando chegar a fatura vão procurar o ponto mais algo para se jogar. Já que, ao contrário de vocês que aparecem do nada, o dinheiro não faz o mesmo, universitário vive quebrado. Agora se me dá licença – colocando os óculos e fones de ouvido novamente – tenho que resolver alguns problemas. Passar bem e não me incomode novamente. Grato!

Provavelmente as pessoas ali me acharam mal educado, mas não estou nem aí, todo dia a mesma coisa. Que nada. Dinheiro ninguém quer me dar, agora torrar minha paciência por nada, todo mundo quer. Não me importo de responder pesquisas na rua, nem de ser abordado uma vez ou outra. Sou bem simpático, mas todo santo dia é muito complicado. Não achei a paciência jogando nas buscas pela internet, então, nada feito. 

Segui atrás de um lugar para impressão, mas em nenhum lugar o meu MP3 abriu. Tive que ir até uma lojinha, que aparentava que ninguém entrava lá para comprar alguma coisa há séculos, mas que fazia a tal impressão. Custando os olhos da cara, mas fazia. Ai minha carteira! Mas voltando, finalmente consegui imprimir tudo direitinho, antes de comemorar, na hora do troco: BALAS! Olhei seriamente para o rapaz e o perguntei:

- Poderei usar essas balas para pagar alguma coisa?
- Mas não tenho troco, por favor, aceite as balas. - Disse, em tom ranzinza. 
- Não quero balas, sou diabético! Disse em um tom ainda mais ranzinza e muito irritado. E mais: se me der essas balas irei chupá-las agora mesmo, porque tenho compulsão quando estou nervoso, como agora – abro os olhos e aproveito para encarar de vez o rapaz que me atende – e minha glicemia vai pra casa dos 500. Grave bem o meu rosto para se sentir culpado da minha morte, principalmente se passar na TV!

Tudo mentira, nem sou diabético, mas só para ter meu troco em dinheiro vale tudo. Oras é um direito meu!

- Tudo bem. Vou procurar aqui o seu troco com alguém, me desculpe. Disse com um tom melancólico e culpado. Gritou na primeira esquina da loja: “não sei queeeeem... vem aqui!”.

Em 15 minutos tudo resolvido e voltei para universidade. Fui perguntar o que aconteceu com meu bilhete de ônibus e descobri que bloquearam porque enviaram meu nome na lista dos formandos. Sempre comigo essas coisas. Descobri que teria de ir desbloquear lá onde o Judas perdeu a paciência, e o melhor, sem ninguém me custear nada. Saí de lá com mais raiva que tudo e ao chegar ao meu prédio dei de cara com os corredores vazios. Até aí tudo bem, o pessoal sempre chega atrasado. Entrei na sala e um aviso: o trabalho será entregue na próxima aula, professor Cicrano não lecionará.

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