Conspiração: Parte I



        


  
AVISO: 
Este conto é um texto puramente fictício. É uma comédia-ficção. Todos os personagens e situações envolvidas foram criadas. Qualquer semelhança é mera coincidência. 

I

DEPOIS DA SEXTA-FEIRA que irei narrar, passei a olhar cada elemento do dia desconfiado e com medo de que tudo se repita. É uma experiência que não indicaria para ninguém. Sei que sempre tem algum abençoado – para não chamar de outra coisa – que acha que pode tudo e que inclusive vai rir do que me aconteceu. Injustiça. Mas não me resta escolha, senão dividir as experiências.

Antes de tudo, devo me apresentar. Meu nome é Frâncio Calbolt e por ter esse nome já fui motivo de piada em todas as turmas de química. Não aparento os meus 19 anos, o que me faz crer que sorte existe. Sinto que todos os meus problemas começam no meu quarto. Acho que ele tem algo doce ou muito atraente. Juro que já pensei até em lamber as paredes para ver se realmente minha teoria do quarto doce estava certa. Ainda bem que não o fiz, ia ficar com o azedume na língua.

Pois bem, ali no meu espaço, que também não é muito grande – mas é melhor do que nada – as pessoas de minha casa vivem entrando lá para pegar alguma coisa invisível, talvez ar -- eu pego mais que eles, claro. O interessante é que eles não entram em silêncio. Querem compartilhar o que foram pegar. São uns amores. Eis que entram, falam e me acordam em meio aos sonhos. Se o branco dos meus olhos mudasse de cor, certamente ficaria vermelho de raiva. Nem preciso dizer o quão desagradável é ser acordado.

O abuso é tanto que até o meu cachorro teve a ousadia de bater na minha porta seguidas vezes para eu abrir. Depois de entrar, nada fez. Só me torrou a paciência para abrir novamente, mas explico isso em outro dia. A minha teoria é que houve, ou talvez ainda exista, no ar uma conspiração do ambiente contra mim. Seleção natural, creio. Mas se trata de uma seleção natural para irritação.

Vocês devem me perguntar por que não tranco a porta, mas aí vem à resposta: com qual fechadura? Só se for a sua, porque a minha não tranca ou quando tranca ela leva a sério e demora demais para abrir. Imagina se acordo apertado? Ah, e tem mais: o pessoal aqui em casa acredita que posso ter alguma complicação de saúde pela noite, e para não se sentirem culpados – na verdade não temos dinheiro para o velório, nem seguro – fazem questão de não arrumar a porta. 'Privacidade é um privilégio’. É. É sim.

Não basta ser acordado por alguém que vai entrar na sua colmeia, digo, quarto, todos os dias. Também tem que está no final do semestre e cheio de trabalhos para entregar. Depois que desliguei o computador e ele resolveu não ligar mais, sempre salvo os trabalhos num disco antes de dormir. Deixo para fazer os ajustes finais pela manhã ao acordar. Brinco com a sorte nesta segunda opção, não é verdade? Enfim, fui dormir três horas da madruga e às seis horas já tinha gente entrando no meu quarto. Até aí tudo bem, normal diante do que vivo todos os dias.

O que realmente me irritou foi à ligação das 7:14. Gravei o horário, porque foi à hora que sem querer abri os olhos e encarei o relógio. Engraçado que sempre temos a ilusão de que se continuarmos de olhos fechados, voltaremos ao bom e velho sonho. Ilusão total, e no fundo a gente sabe que não vai voltar coisa alguma, só a raiva durante o dia em ter perdido o sonho, principalmente ao constatar que ele era bom.

Eis que toca o temido e insuportável telefone. Na primeira vez deixei tocar. Cinicamente fiz de conta que era algum símbolo do meu sonho de olhos fechados sem dormir. "Olha só que som agradável..." Na segunda, também deixei porque pensei: ah, se for à mesma pessoa verá que não tem ninguém em casa e me deixará em paz. Mas não é que a infeliz ligou novamente? Tive que levantar. Achei que algo pudesse ter acontecido. E acredite: me tirar da cama para nada me irrita profundamente. Pois bem, atendi ao telefone.

– Bom dia!
Pensei comigo: só se for para você, porque acaba de estragar o meu dia. Mas não quis demonstrar nada:
– Bom dia – respondi com voz de poucos amigos e demonstrando que tinha acabado de acordar. Fiz questão de enfatizar isso, até bocejei.
Sentindo que me acordou, ela continuou:
– Estou ligando por indicação de um amigo – nessa hora percebi que algo tentaria mudar meu humor. Na maioria dos casos as pessoas não indicam pela linda cor dos seus olhos, mas sim pelo que vão ganhar em troca.
– Sim. E?
– E estou te oferecendo um cartão de crédito com limite de mil reais. Neste primeiro ano não pagará anuidade e nem taxas altas de juros.

Imediatamente me veio o sentimento tão grande de raiva, mas tentei me acalmar. Sou universitário, universitário deve responder bem as pessoas, certo? Não! Não depois de dormir três horas da manhã, de ser acordado por entrarem no meu quarto, e pior: ser incomodado na tentativa de voltar a dormir por um vendedor de cartão de crédito. Ora, me poupe! Porém, me contive e respondi apenas:

– Não estou interessado, tenha um bom dia.

Não sei por que diabos ela não desligou o telefone também nessa hora. Tinha que insistir para me deixar irritado, claro. E aí ela continuou:
– Senhor este cartão é aceito em todos os lugares. Inclusive, em viagens para o exterior. Você ainda ajudará a associação de idosos de São Clemente de São Judas Tadeu. Ainda oferecemos por 32 parcelinhas fixas um consórcio, onde o senhor vai está concorrendo a nada menos que 500 mil reais por mês! É uma chance única, basta que o senhor preencha agora a proposta aqui comigo, como fez o seu amigo. Por favor, me confirme o seu CPF e CEP?

Nem precisei dizer que fiquei com muita raiva e criei uma lista de adjetivos para essa criatura. Mas ela havia se metido com a pessoa errada, pois, o meu apelido aqui é de problemático, já que sempre consigo resolver as coisas usando problemas, ou pondo as pessoas neles. E então respondi:

– Senhora?
– Sim? – respondeu, esperando ouvir um sim ou os números.
– Onde fica essa associação?
– Fica em São Judas Tadeu, senhor.
– Sim, e onde fica são Judas Tadeu?
– Fica no interior do Acre senhor.
– Antes de qualquer coisa, esta ligação está sendo gravada?
– Sim. Para a sua segurança todas as nossas ligações são gravadas. O senhor pode está solicitando quando quiser. – replicou com o ar simpático-artificial tentando exalar segurança.
– Ótimo. Então para que tenha segurança, me informe por gentileza o número de sua matrícula para que eu possa me assegurar de suas informações.
Por alguns segundos um silêncio nos divide.
– Alô?
– Senhor, não posso lhe fornecer os meus dados da empresa.
– Tudo bem. Então, passar bem, bom dia. Não farei nada.
– Veja bem – nenhuma frase que começa com ‘veja bem’ é indício de algo positivo e agradável. Na realidade, na maioria das vezes é mentira lavada mesmo – eu vou tá te fornecendo os dados, mas o meu supervisor não pode saber.
– Oh, Ok. Muito obrigado, será segredo de Estado! – respondi em um tom de desdém, sem deixar que ela percebesse.
– É 8712366-1.
– Obrigado. Agora vamos ao que interessa. Conhece o programa Google Earth? Pois bem, se não o conhece, use-o para dar informações concretas e reais. Em primeiro lugar, São Judas Tadeu não fica no Acre e sim no Amazonas, inclusive conheço esta instituição e adoro os idosos de lá. Em segundo lugar, creio que não entenda português fluentemente, pois se não percebeu, eu disse que não estava interessado. Qual o seu dever? Agradecer e desligar. Mas não, quer insistir até que eu mude meu estado de espírito. Vem cá, qual a parte do não interessado não entendeu para que eu possa tá te explicando? NÃO ESTOU INTERESSADO, repetindo: – no ápice do lado cretino, com a voz computadorizada, como se fosse uma gravação, soletrei: N-Ã-O, E-S-T-O-U I-N-T-E-R-E-S-S-A-D-O! E é claro, em terceiro, está me incomodando, acabou de me acordar, estou cansadíssimo, em final de semestre cheio de trabalhos para terminar. Para te situar, segundo a lei nº 898126/54 você está ferindo o meu ócio, logo, senhora, desejo por gentileza, falar com o seu superior para formalizar a reclamação anexando o seu número de sua matrícula. E segundo a lei nº 544123/10 é obrigada a enviar essa conversa de áudio para o meu e-mail, quando solicitar. Logo, estou solicitando. Ah, e só para completar, gostaria de saber o nome de quem me indicou, pois certamente não é um amigo e já vou bloquear. Nenhum deles se prestaria ao papel ridículo de me indicar alguma coisa que fosse me tirar da cama tão cedo!

Neste momento fiquei a esperar a resposta tentando tirar a sujeira da unha, muito concentrado, mas tudo que ouvi foi:

– Senhor, peço desculpas pelo inconveniente e te desejo um ótimo dia.
– Você está desligando na minha cara? É isso!? Disse que quero falar com seu supervisor agora!
– Senhor gentilmente te peço desculpas, mas não posso transferir a ligação. Tenha um bom dia.
– Tudo bem, você está com medo. Mas escute bem isso, ESCUTE: se alguém daí me ligar novamente, não importa o horário, darei o número de sua matrícula e estarei processando todos vocês! Acredite, conheço muito bem as leis! Ah se conheço, minha segunda habilitação é em Direito, com ênfase em processos de telemarketing, ouviu bem?!

Neste momento ouvi um ‘tu tu tu’. Em situações normais, ficaria muito irritado com alguém desligando o telefone na minha cara, mas nesse momento sorri e vi que poderia continuar a tentar dormir. É lógico que não sei nem se existe esse lugar São José do sei lá o quê, e nem sei de lei alguma, quanto menos ênfase em Direito, mal estou na habilitação em Ciência da Computação, mas queria a minha paz de volta. Então, voltei a deitar para levantar pontualmente às 08h para terminar os ajustes finais para impressão. Depois fiquei com um pouco de remorso, a garota só estava tentando fazer o trabalho dela, mas poxa, custava não ser chata?

[Continua...]

Comentários

  1. "...já pensei até em lamber as paredes..." me racho UHAIEUHA

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