Por que quase tudo tem que vir para internet?



Talvez porque as redes sociais têm se expandindo e se popularizado cada vez mais, talvez para autoafirmação ou preenchimento de vazios e solidões. Mas a questão que levanto é: por que quase tudo tem que vir parar na internet?
Desde o crescimento do acesso à rede até a sua popularização atualmente, as pessoas têm inserido muitos conteúdos -- não só texto, mas principalmente fotos e mais recentemente vídeos -- não só pelo acesso, mas também pelo grande número de servidores que oferecem serviços distintos e gratuitos. Consequentemente, a rede tornou-se uma espécie de praça, na qual as pessoas se apresentam como querem e transmitem o que supostamente sentem ou desejariam sentir.
Hoje não é tão difícil saber o que um amigo está fazendo. Se ele possui contas em redes de sociais é muito fácil obter informações um tanto pessoais -- ou que pelo menos circulariam para ciclos sociais menores. Tais como: onde mora, estuda, o que fez no final de semana, se está namorando ou não e por aí vai. Observe os nicknames, cada vez mais detalham o cotidiano das pessoas. Vale também o exemplo que sempre dou: Fulano vai ao churrasco e fotografa até o espeto da carne na brasa e publica tudo sem nenhuma reserva. Me questiono sempre: para quê tanta exposição?

Não estou condenando ninguém e nem sou contra compartilhar alegrias. Mas há momentos em que precisamos ter limites, sobre o que realmente é interessante por na internet e o que é exposição desnecessária. Até porque, uma vez publicado, não há mais controle sobre aquilo. É um perigo aparentemente despercebido. Não se sabe quem viu ou armazenou, estando público, qualquer um pode acessar. É um ambiente em que não há controle de absolutamente nada.

Controvérsias, regras e consequências

Nas redes há diversas controvérsias com o mundo offline. Vários modelos a serem seguidos, regras invisíveis, porém densas e imperceptíveis aos seus usuários. Por exemplo, na internet parece que é proibido estar fora dos padrões estéticos, ter poucas condições financeiras, ou simplesmente ser diferente. Caso seja há vários donos/as de páginas, com o mouse pronto para capturar as imagens e consequentemente publicá-las, objetivando piadas.
Geralmente os usuários que estão servindo de riso, nem sequer sabem que estão cumprindo a função. Ainda que as fotos escolhidas para humor geralmente possuam a natureza de terem parado na internet por engano, não podemos deixar de analisar a gravidade de tudo isso. Podemos considerar que muitos desses usuários, sequer sabem dos perigos da publicação, tampouco como usar as ferramentas de um determinado serviço.
Brigas e barracos que fora das redes, são até consideradas normais, na internet viram sinônimo de inferioridade, e ao contrário do que poucas vezes acontece fora delas, há pessoas opinando, rindo ou incentivando o prolongamento de tal situação.
Os erros ortográficos, podem também entrar nesta linha que separa o inferior do superior, da mentira e do faz de conta, do real e concreto. Não é pensado, muitas vezes, que o indivíduo ao publicar uma ‘casa’ como ‘caza’, pode não possui instruções devido a sua condição alimentada por outros fatores sociais. Ao invés de oferecer meios para sua inserção, são vítimas de piadas. E a autoestima destas pessoas como será que fica? Será que também é pensado nisso quando se publica, compartilha e ri?
Há vários itens e normas invisíveis que separam e classificam as pessoas distintas dessa ordem geral. Não muito diferente do offline, a sexualidade, etnia, classe social, idade, sexo e muitos outros, servem para excluir pessoas e consequentemente interferir em sua autoestima. Quantas vezes vemos na página de recados de alguém várias alusões sobre um ou mais itens citados aqui? Mas como tudo vem para internet, tudo isto é motivo para riso. Não precisamos ir para longe para dar exemplos, basta checar quais são os vídeos mais assistidos e quais as páginas mais populares e acessadas do gênero.

Terra sem limites, por interações sem?

Parece que foi criada a ideia de que a internet é a terra sem dono ou limites. É tudo livre e todos os indivíduos podem postar, copiar, o que realmente querem sem responsabilidade. Mas sabemos que não é verdade. Na medida em que, ao se apropriar de algo, esse possui forças o suficiente para provocar consequências, sejam elas positivas ou negativas. 
Se a ideia de que tudo vem parar na internet me incomoda é muito sustentada nisso, nesta espécie de praça pública de exposição desnecessária e sem limites. Não se tem o bom senso e sensibilidade em lidar com o que é publicado.
Agora vivemos outros dilemas. Quantas vezes temos que nos esconder de máquinas fotográficas porque simplesmente não queremos sair em uma foto? Não sabemos onde ou quem irá ver e nem o objetivo. Nem imaginamos o que o indivíduo poderá fazer com uma simples foto do perfil. Mas pouco geralmente é levado em consideração e nós, anônimos, em um passe de mágica podemos ocupar o status de subcelebridade freak.
A natureza das reproduções é indefinida. Mas a responsabilidade é também do usuário. Que alimentemos o bom senso e limites do que é exposição desnecessária ou do que é um compartilhamento realmente útil. Até porque, como qualquer outra exposição, há sempre os riscos. Riscos que limitam a própria liberdade e felicidade do indivíduo.

E você? O que tem publicado? Será que realmente precisamos que quase tudo venha parar na internet? 

Comentários

MAIS DE ÓTICA COTIDIANA